Reflexões Crónicas – Mustafá Gancho: o Pirata dos Flamengos

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Termina amanhã em Lisboa a exposição “Entre a Cruz e o Crescente: o resgate de cativos”, patente na Torre do Tombo desde Março. Esta iniciativa evoca os 800 anos da fundação do Convento da Santíssima Trindade de Lisboa (1218), ordem religiosa que tinha como função resgatar os cristãos que eram cativos pelos muçulmanos no Norte de África.
Até ao início do século XIX o Atlântico estava pejado de piratas e corsários, com particular incidência em redor das nossas ilhas, um alvo apetecível pois não só estavam isoladas e pouco defendidas como eram local de passagem de muitas das rotas que cruzavam o oceano. Muitas histórias e lendas do “tempo dos piratas” chegaram até nós, mas é difícil de conceber o perigo que o mar representava nesses tempos, ou mesmo que es-tando em terra a qualquer momento poderíamos ser atacados e raptados. As pessoas raptadas por corsários “mouros” eram chamados de “cativos” e seguiam até ao Norte de África, onde ficavam a viver até que fosse possível serem resgatados. De todos os portugueses resgatados entre os séculos XVII e XIX um terço eram açorianos.
Um dos casos porventura mais sui generis de toda esta saga é o do faialense José Cardoso, cujo processo original, datado de 1698, está exposto ao público na referida exposição. Natural dos Flamengos, nasceu em meados do século XVII e, com 18 anos, embarcou como marinheiro num navio que levou casais do Faial para povoar o Maranhão, no Brasil. No regresso o navio foi capturado por corsários argelinos e os seus tripulantes foram feitos cativos. José Cardoso serviu um senhor chamado Mustafá, passando a chamar-se assim também. A certa altura, sofrendo de muita violência, decide renegar à fé cristã. A partir daí torna-se muçulmano e ele próprio embarca num barco corsário, subindo na hierarquia ao longo dos anos seguintes até chegar a contramestre e tornar-se um corsário conhecido como “Mustafá Gancho” (desconhece-se o porquê do epíteto).
Um dia, em Fevereiro de 1698, o navio em que seguia foi apresado por italianos ao largo do Sul de Espanha. Tendo-o identificado como europeu e cristão renegado, foi levado com outros dois companheiros até Lisboa, onde foram entregues à Inquisição. É graças a ter sido preso e condenado que temos hoje muitas informações sobre a sua vida, as quais estão reunidas no processo que levou à sua condenação.
José Cardoso afirma que só renegou porque não teve melhor solução, mas que no fundo se manteve sempre cristão, rezando a Alá perante os outros, mas, no seu interior, recitando o Pai Nosso e a Avé Maria. No entanto, apesar de mostrar arrependimento e de se tentar desculpar, é honesto e afirma que prendeu embarcações de várias nacionalidades e só nunca apresou um navio português porque nunca teve oportunidade, caso contrário provavelmente tê-lo-ia feito. Foi apenas condenado por “islamismo”, com uma pena leve, não sendo condenado por corso.
Este é apenas mais um personagem da nossa história de quando em vez referido, mas ainda pouco conhecido entre nós, que, no entanto, é conhecido e estudado no exterior. Quanto mais da nossa identidade e da nossa cultura necessita que de fora nos lembrem a sua importância, por a desconhecermos ou termos já esquecido?
Fica a reflexão.

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Veja-se: <http://antt.dglab.gov.pt/entre-a-cruz-e-o-crescente-o-resgate-de-cativos-exposicao/>

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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