Reflexões Crónicas – O problema dos partidarismos (II)

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Nem a respeito do meu último texto, já preparado há algum tempo, deu-se a polémica com o comentário do presidente da Câmara das Lajes do Pico (1). A respeito, e na sequência, tive conversas com vários faialenses que concordaram comigo, alguns dos quais, curiosamente, continuam a defender algum partido, mesmo reconhecendo a incompetência dos seus eleitos (2). Em paralelo, fala-se da primeira fase da Frente de Mar, e tenho sido abordado por muitas pessoas sobre o tema (3). Vamos por pontos.
1. A polémica alcançou tal repercussão simplesmente pelo uso de um termo homofóbico. Não sendo de todo aceitável, considero muito mais grave o contexto em que surgiu. Nas últimas décadas as questões LGBT deixaram de ser tabu em Portugal, mas, na prática, só nos anos mais recentes as mentalidades se começaram a alterar rumo à tolerância e há por isso ainda um longo caminho a percorrer (nos Açores a primeira organização neste âmbito surgiu há uma meia dúzia de anos, por iniciativa do alvo do dito comentário). É por isso natural que usar termos destes seja ainda frequente (e com isto não estou a defender a prática nem a sua aceitação, só a constatar uma realidade), muitas vezes são utilizados como mera vulgaridade, sem serem sequer pensados na sua total conotação. Por isso, apesar de concordar com a infelicidade do comentário, nem me choca nem preocupa. O que considero sim preocupante é que, depois de dois séculos de liberalismo (e parlamentarismo), um de república e quatro décadas de democracia, ainda haja políticos que actuam como monarcas absolutos do século XVII, como se o voto popular fosse sinal de uma nomeação divina que lhes permite fazer tudo o que querem, incluindo, como neste caso, censurar um cidadão e as suas iniciativas (por sinal meritórias) só porque no passado esse cidadão, agindo correctamente, pôs em causa a má acção da autoridade política. Ou seja, tal como na questão dos partidarismos, o critério não é servir a população da melhor forma, mas sim agradar a quem governa e abafar quem tem uma palavra diferente, sem olhar aos danos colaterais. Infelizmente, situações como esta (e mais graves) acontecem todos os dias, muitas bem perto de nós, e ninguém se parece preocupar (talvez por nos afectarem a todos e não a uma minoria…).
2. Dá outro artigo, mas resumo num testemunho recente que ouvi: “Fulano é incompetente, F. é ignorante, F. é desonesto, F. faz um mau trabalho; Sicrano é inteligente, S. é sério, S. é trabalhador; votei em Fulano porque é bom político.” É a chamada “lógica da batata”.
3. Quanto à Frente de Mar, como em tudo nesta vida, a nossa Câmara tapa o sol com a peneira e vai atirando areia a quem passa. Não há nada que possa escrever sobre o assunto que não tenha já sido escrito, nem vai fazer diferença. Mas, para futuro, deixo registadas uma ideias. A grande bandeira deste projecto (além de ser suposta cura milagrosa para os males faialenses…) foi a discussão popular que o precedeu, a uma escala sem precedentes. O que normalmente fica fora da publicidade é perceber como foi feita essa discussão e que impacto real teve. Continua a dizer-se a viva voz que este é um “projecto dos faialenses” e que todos o defendemos, mas até agora ainda não conheci faialense que o defendesse com plena convicção, com excepção dos apoiantes do partido no poder. Se observarmos com atenção o documento com o registo das sugestões deixadas pelos populares nas sessões de discussão pública percebemos que só uma parte foi levada em conta e em quase todos os casos houve outras razões envolvidas. Dando um testemunho pessoal, de uma das questões para mim mais sensíveis, há mais de um ano que sou abordado por pessoas que se dizem em total desacordo com a destruição do adro da igreja das Angústias, que consideram (e subscrevo) uma asneira total. De facto, até hoje não encontrei uma pessoa a favor (e de facto é uma asneira, porque o adro só poderia ser uma praça se a igreja fosse retirada de lá, o que, até agora, não consta do caderno de encargos). Sei que houve uma reunião pública na igreja sobre assunto e ninguém se opôs na altura, mas o que me conta quem lá esteve é que só percebeu o que estava em causa posteriormente. Ou seja, foi feita uma discussão pública em que não se informou as pessoas do que estava realmente em causa. Alguma dúvida tivesse eu sobre isso, basta dizer que andei um ano a pedir à CMH para consultar os pareceres técnicos sobre essa intervenção (que os houve, mas nunca ninguém os viu), e o mais parecido que tive com uma resposta (quando questionei pessoalmente) foi dizerem-se que “há coisas que as pessoas não têm de saber”. Ou seja, fez-se uma discussão pública sem explicar à população o que estava a ser discutido e ocultando o que não era conveniente, de modo que o argumento da aprovação popular do projecto cai por terra.
Fica a reflexão.

 

cham.tss@gmail.com

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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