Reflexões Crónicas – Os Açores na Cartografia

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Na passada segunda-feira realizou-se, na Biblioteca Pública da Horta, uma palestra com o mesmo título deste texto. O objectivo era fazer a apresentação pública de um mapa quinhentista dos Açores que foi lá depositado há alguns meses. Este mapa, da autoria do cartógrafo régio Luís Teixeira, foi impresso em Antuérpia por Abraham Ortelius, em 1584, inserido na obra Theatrum Orbis Terrarum, considerada o primeiro atlas moderno. A partir deste documento fez-se um percurso por alguma da cartografia que representou as ilhas do arquipélago, realçando o papel que teve no contexto da cartografia realizada a partir daí.

Mais do que ficou dito nessa sessão, ou do que um mero arrolar de imagens com representação mais ou menos precisa das ilhas, é importante a reflexão em torno das ilhas em si, de como foram sendo vistas e que papel desempenharam ao longo dos tempos, o que nos permitirá compreender muitas das dinâmicas que ainda hoje têm.

Hoje dizemos por vezes que estamos “na cauda da Europa” mas “no centro do mundo”. Esta ideia não é de modo nenhum recente. De facto, quando as ilhas foram (re)descobertas e povoadas correspondiam literalmente ao fim do mundo, pois não se conhecia o globo para lá do (actual) Atlântico. Mas se continuaram a ser longe e perdi-das no meio do mar, depressa se tornaram também no centro do mundo, um mundo que se descompartimentou e se viu aos poucos cada vez mais global. E essa globalidade passou (e passa) pelos Açores.

Não querendo fugir muito do âmbito histórico, antes usá-lo como base para que cada um teça as suas próprias considerações, deixo registadas algumas ideias. Por um lado, a posição central do arquipélago no mundo, tão badalada mas tantas vezes pouco ou mal explorada ou compreendida nos seus reais significados e potencialidades. Por outro, a própria realidade interna das ilhas, desde cedo cruzadas por gentes e culturas de todos os quadrantes, é certo, mas não por isso menos isoladas de si mesmas, com as distâncias acrescentadas pelos caminhos tortuosos do interior e pelo mar não menos difícil, resultando em interdependências que sempre existiram e que foram ditando ao longo do tempo hierarquias entre os espaços e os homens. Na cartografia quinhentista e seiscentista, por exemplo, nota-se uma clara aposta na divulgação da Terceira, com destaque para Angra, que era então o porto mais importante da navegação que cruzava as ilhas e era também, naturalmente, o ponto com mais importância política e económica. Nos séculos seguintes dá-se a alteração do centro da navegação, sucessivamente para a Horta e depois para Ponta Delgada, propiciado por factores variados tanto de ordem interna como externa.

Hoje, à parte todas as limitações que se possam ou queiram apontar, vivemos com todas as condições para que as ilhas estejam em pé de igualdade entre si. E igualdade não significa tudo igual para todos, significa a cada um corresponder o mesmo do que lhe é igual, mas também dar o seu a seu dono.

Ao contrário dos homens que desenharam mapas ou foram desbravando as ilhas há quatro ou cinco séculos atrás, hoje conhecemo-las bem, e temos por isso obrigação de perceber o que é melhor para cada local e para cada situação, em vez de se reclamar por não se ter o que os outros têm e nós não, ao mesmo tempo que se deixa que os ou-tros levem o que temos e eles não têm (ou não deviam ter).

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Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovada-mente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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