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Retalhos da nossa história – CLXXVII – Aviões da esquadrilha do Marechal Balbo na baía da Horta

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Ansiosamente aguardada, a famosa esquadra aérea do marechal Italo Balbo chegou aos Açores a 8 de Agosto de 1933 completando em pouco mais de 10 horas o voo que iniciara na Terra Nova. Era composta por 24 aeronaves que, tendo partido de Ortebello a 5 de Julho, onde se exibira na Exposição Internacional de Chicago numa clara demonstração de propaganda e de poder do fascismo italiano de Benito Mussolini. O próprio presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, longe ainda de prever até onde iriam os regimes totalitários como o italiano, não hesitou em conceder uma audiência ao general Balbo e, mais do que isso, em telegrafar ao rei Victor Manuel e a Mussolini testemunhando-lhes a sua admiração pelo memorável feito dos aviadores transalpinos que, assim, “acrescentavam uma nova página de glória aos longos anais dos triunfos italianos”. Em Nova Iorque “mais de três milhões de pessoas aclamaram os aviadores” que “foram conduzidos em marcha triunfal através da cidade”, numa “apoteose deslumbrante”. Porque já se sabia que nove dos hidroaviões de Balbo amarariam na baía da Horta aguardava-se que, “apesar da nossa pobreza, não devemos deixar de também os aclamar entusiasticamente” recebendo-os “com vibrantes aclamações”1. Tudo estava, de facto, logisticamente preparado, pois uns dias antes chegara o vapor italiano “Citta di Catania” com equipamento para prestar assistência aos hidros e suas tripulações e carregado de combustível para abastecimento dos aviões, tendo já sido “retiradas das suas amarrações as boias 1,2 e 3, a fim de deixar o porto livre para a esquadrilha aérea do comando do general italiano Balbo (…)”2 Também, politicamente, os dois jornais faialenses haviam entrado numa renhida disputa de exaltação não só dos “gloriosos aviadores”, mas da Itália fascista, chegando a escrever-se que “Mussolini e Balbo são, no momento que passa, as figuras que enchem a Europa com o seu exemplo criador e indomável”3. E, mais ainda do que a imprensa, foram as próprias autoridades, com destaque para o Governo Civil – que chegou ao ponto de criar uma comissão de recepção – a envolveram-se de tal maneira no evento, também traduzido em convite publicado na imprensa local e dirigido “a todas as associações, corpos e corporações administrativas, funcionalismo público, corpo consular, professorado, academia, escolas, escoteiros, e em geral todo a população desta ilha do Faial, a comparecerem no cais de Santa Cruz, a fim de ser prestada entusiástica e pública homenagem aos ilustres representantes da gloriosa aviação italiana na ocasião da sua chegada ao porto da Horta”4. Foi, portanto, neste ambiente, que no dia 8 de Agosto, “das 16 às 16 h e 30 amarissaram dentro do porto artificial onde amarraram os seguintes aviões italianos: Ipele, Imigl, Ilarg, Inann, Ilipp, Iravi, Itrim, Ilean e Iteuc”5.

Mais entusiásticos e descritivos do que os Serviços de Pilotagem são os dois jornais faialenses que dedicam ao acontecimento as primeiras páginas, titulando o Correio da Horta em grandes parangonas: “Os aviadores italianos chegam ao Faial / Constitui uma verdadeira manifestação de carinho e simpatia a recepção que a Horta fez aos bravos aviadores italianos” descrevendo, em seguida o que foram a chegada, o desembarque, os cumprimentos a bordo do “Citta di Catania”, o jantar e os discursos pronunciados. 

Interessa registar, sobretudo, a chegada das aeronaves que, como já se apontou começou às 16 horas: “ os primeiros dois aviões surgem ao lado do Monte da Guia, um voo altivo de águias dominando os ares sob a vontade forte do grande aviador – o general Balbo”; esses, porém, seguem ao largo, vão para S. Miguel. Pouco depois, e na mesma direcção, aparece outro avião; “os sinos das igrejas da cidade repicam festivamente, os foguetes estalejam vibrantemente pelo ar e as sereias apitam em regozijo”. E vão aparecendo mais aviões que seguem, ao largo, o rumo dos primeiros, até que surgem os que vêm para a Horta. “São três esquadrilhas; voam baixo, entrando pela baía de Porto Pim, passam sobre o cais de Santa Cruz, dão uma volta ao largo do canal e vêm amarar suavemente dentro da baía”. Entretanto, chegam outros, passam os últimos que vão para S. Miguel, sempre saudados por estridentes girândolas de foguetes, repiques festivos de sinos e sereias ruidosas”. A par das autoridades, centenas de pessoas estavam no cais de Santa Cruz, onde “um tapete de lindas hortênsias cobria o amplo largo para receber os ilustres visitantes”. Depois foi o desembarque, com o general Pellegrini – era o 2.º comandante da esquadra, pois Balbo seguira com as outras esquadrilhas para Ponta Delgada – à frente dos seus bravos oficiais. A filarmónica Artista tocou o Hino Faialense e estalaram as palmas, “ovacionando os aviadores que vestem, por debaixo das fardas, as camisas negras dos fascistas”. Do cais de Santa Cruz dirigiram-se, acompanhados pela multidão e pelas autoridades para o molhe da doca, entrando depois no “Cittá di Catania”, onde decorreram os cumprimentos protocolares, e onde foram obsequiados com um banquete no decurso do qual os comandantes do navio, o general Pellegrini e o presidente da Junta Geral, Osório Goulart, pronunciaram animosos e laudatórios discursos6. 

Naturalmente, também O Telégrafo descreveu o acontecimento de forma bastante impressiva e entusiástica, assinalando que aquele era um dia de festa, de alegria e de satisfação. “Festa para a nossa terra que vestiu galas, alegria e satisfação para todos os que viram chegar a esquadra aérea, composta de três esquadrilhas sob o comando do general Pellegrini” que, assim, marcou “mais uma página gloriosa para a nação italiana”. E, poeticamente, exclamava: “Como é ditosa a nossa terra! Nela temos o mar imenso que a cada instante nos diz e conta a sua ansiedade em receber mais visitantes ilustres para assim provar ao mundo que embora a terra sendo pequena ela foi desde sempre abençoada e privilegiada para receber maiores cometimentos e feitos de tão grande alcance para o futuro da Humanidade”. E, sublinha o jornal, uma “imensa multidão, apinhando-se acotoveladamente sobre as muralhas do mar”, testemunhou “ a audácia de 24 aparelhos atravessando o mar com certeza matemática e trazendo dentro de si o coração duma Itália grande que ansiosa os espera para lhe tributar carinhosos afagos”. O reduzido tempo de permanência dos aviadores italianos impossibilitou que se realizasse o cortejo cívico que estava preparado para homenagear os “ilustres visitantes”7. 

Durante a noite os nove aviões foram abastecidos de combustível, de forma que às 6 horas levantaram voo, “seguindo para leste depois de darem algumas voltas sobre a cidade da Horta”8. 

 

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