Filho de pais humildes, nasceu na freguesia da Conceição, cidade da Horta, a 15 de Janeiro de 1848. Cedo aprendeu o ofício de marceneiro, a ele se dedicando nos Estados Unidos da América do Norte para onde emigrou ainda novo. Aí – precisamente na cidade de New Bedford – trabalhou como marceneiro de finos, construindo mobiliário e acabamentos das pontes dos barcos baleeiros. Mais tarde, e sempre naquela cidade, empregou-se numa fábrica de órgãos de tubos. Nela muito aprendeu “à sua custa, pois sem ter uma educação científica e artística, artista se fez, pelo seu esforço, pela sua inteligência e pelo seu trabalho perseverante, coligindo apontamentos, adquirindo conhecimentos, instruindo-se em tudo quanto dizia respeito ao fabrico e construção de tão difíceis quão grandiosos instrumentos, nas suas menores minuciosidade e detalhes1.
Regressado aos Açores, construiu vários órgãos e reparou muitos outros, introduzindo-lhes algumas modificações no seu complicado mecanismo, quer nas construções, quer nas reparações das suas peças essenciais, nomeadamente no processo de soldagens dos canos, na idealização de um novo modelo de foles movido por uma alavanca à mão (em substituição da de pedal) evitando assim a irregular e má distribuição do ar nos canos dos órgãos que ao chegar ao someiro e dele passando aos respectivos registos, tornava os sons mais doces e mais harmoniosos2.
Manuel de Serpa da Silva, construiu 13 órgãos para igrejas de seis ilhas açorianas, assim distribuídos: 4 para São Jorge (1 para a Calheta, 1 para o Topo, 1 para a Ribeira Seca e 1 para os Biscoitos); 3 para São Miguel (1 para o Nordeste, 1 para a Povoação, 1 para Vila Franca do Campo); 2 para a Terceira (1 para a Agualva e 1 para São Mateus); 2 para o Faial (1 para Pedro Miguel e 1 para São Francisco); 1 para Santa Cruz das Flores e 1 para a Silveira da ilha do Pico. Este órgão, provavelmente o segundo que Manuel de Serpa da Silva construiu, datava de 1890 e viria a ser destruído por um incêndio que devorou a igreja de São Bartolomeu daquela localidade, sendo substituído pelo que fizera para os Biscoitos de São Jorge e que ele, já bastante idoso, ajudou ainda a armar e afinar (1927). Consultando os jornais faialenses de 1890, lemos que, nos começos de Maio, seguiu “no iate Lidador para São Jorge o órgão construído pelo habilíssimo artista sr. Manuel de Serpa da Silva, que foi também àquela ilha a fim de proceder à montagem daquele instrumento”. Acrescentava o autor da notícia que “tivemos, por mais de uma vez ocasião de ver e ouvir o órgão aludido, verificando ser um trabalho perfeitíssimo, que muito honra o construtor”3. Na mesma linha se pronunciava outro semanário faialense, salientando “que confirmam os entendedores que não foi inútil a viagem que o sr. Serpa fez aos Estados Unidos onde foi adquirir conhecimentos para a construção de instrumentos daquela espécie, revelando já antes muita aptidão e habilidade noutras construções como instrumentos de cordas”4 .
O primeiro órgão construído por Manuel de Serpa da Silva “foi armado na capela do Império dos Nobres, na rua D. Pedro IV, e os restantes já então na sua casa na mesma rua”5. Pelos elementos recolhidos podemos situar a intensa actividade artística deste organeiro faialense entre 1890 e 1907, ano em que foi construído o órgão de São Francisco da cidade da Horta, um “trabalho perfeitíssimo” do “exímio artista sr. Manuel de Serpa da Silva” que o “hábil organista” José Cândido Bettencourt Furtado, depois de “proceder a algumas experiências no novo órgão” não hesitou em considerá-lo como “o trabalho mais completo e perfeito até hoje fabricado por aquele artista”6.
Realizou também grandes reparações em alguns daqueles instrumentos, como foi a reconstrução, em 1915, do órgão da igreja das Angústias da cidade da Horta quando ali paroquiava o padre Raul Camacho, e que havia sido construído em 1805 na cidade de Lisboa pelo famoso artista Joaquim António Peres Fontanes (1750-1820?). Este e António Xavier Machado e Cerveira (1756-1828) – que construiu 14 órgãos destinados a templos açorianos, entre eles o da Matriz da Horta em 1814 e restaurado em 1996 pelo mestre organeiro Dinarte Machado – são os expoentes máximos na feitura dos órgãos de tubos existentes no arquipélago.
Manuel de Serpa da Silva, vivendo e trabalhando bastante tempo depois daqueles dois mestres portugueses, não deixou de ser o “principal responsável por uma evolução muito interessante para o meio organístico açoriano” de finais do século XIX e “do primeiro quarto do século XX”7. Apesar da sua idade avançada, ainda se dedicou à feitura de bandolins, guitarras, violas, violinos e um contra-baixo de cordas. Começou “a construção de um piano, para o qual tinha feito todo o maquinismo, faltando-lhe apenas fazer a caixa; pena foi que não tivesse tido vida para o concluir, pois era o primeiro piano feito nos Açores e certamente em Portugal”8 .
Artista consagrado, Manuel de Serpa da Silva destacou-se ainda como cidadão, sendo director da “Sociedade Cooperativa dos Artistas Faialenses”, presidente da direcção da “Associação de Socorros Mútuos Artista Faialense” e da “Sociedade Cooperativa Previdência Operária”, membro da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia, da Câmara Municipal e da Junta Geral do Distrito da Horta.
Vítima de “pneumonia gripal”, faleceu no estado de solteiro, na sua casa à rua D. Pedro IV da Matriz da Horta no dia 31 de Maio de 1928. Fez testamento e tudo deixou ao seu herdeiro legítimo “um único filho, perfilhado, Manuel de Serpa da Silva Júnior”, legando “a Maria do Céu de Azevedo e Silva, viúva, residente em sua companhia, o usufruto vitalício de um prédio de terra lavradia, medindo oitenta e sete ares e doze centiares, situado na freguesia da Praia do Almoxarife, de que ele testador era proprietário”9. Tinha 80 anos de idade.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1 A Democracia, 12 Junho 1928
2 Cf. Idem, Ibidem
3 O Açoriano, 4 Maio 1890
4 O Atlântico, 10 Maio 1890
5 A Democracia, 12 Junho 1928
6 O Telégrafo, 26 Abril 1907
7 Machado, Dinarte e Doderer, Gerhard –Inventário dos Órgãos dos Açores, p. 19
8 A Democracia, 12 Junho 1928
9 BPARJJG, Livro n.º 3 de Registos de Testamentos da Polícia Cívica da Horta 1928/29, fls. 24-26












