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Retalhos da nossa história – CLXXXVIII – Orquestra João de Deus

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Na década de 80 do século XIX a Orquestra João de Deus foi um dos primeiros agrupamentos musicais do Faial que, sendo “único no seu género, ajudou a tornar “mais brilhantes as festividades”1 religiosas e artísticas. 

Ter-se-á desenvolvido de tal forma que, uns anos depois, se constituiu notarialmente com os seus estatutos aprovados, a 2 de Julho de 1892, pelo governador civil do distrito da Horta, Dr. Manuel de Arriaga Nunes, os quais lhe haviam sido propostos dois meses antes pelos seguintes musicólogos e sócios fundadores: João de Deus Teixeira, Henrique de Sousa Furtado, Manuel Augusto de Ávila, Guilherme Augusto da Terra Mesquita, Jaime Constantino da Terra Mesquita, José Silveira Garcia, Tomás Inácio da Silva, Tomás Francisco de Medeiros e José Goulart Cardoso. 

Estes estatutos da oficialmente designada “Sociedade e Orquestra João de Deus” instituíam na cidade da Horta – agora em letra de forma! -“uma associação de recreio com o fim de desenvolver por todos os meios ao seu alcance o gosto pela música, prestando-se a tocar aonde forem convidados os associados, recebendo, por isso, os proventos que pela sociedade forem estipulados”                 (art.º 1º). O número máximo de associados tocadores era de 10, só podendo ser ultrapassado em circunstâncias excepcionais e por decisão unânime de todos eles. Admitia-se, porém, a possibilidade de existirem “tocadores excedentes na qualidade de praticantes”. A nova sociedade era administrada por um regente de orquestra e por um executivo de três membros: um director, um secretário e um tesoureiro, sendo o “regente de nomeação permanente escolhido de entre os sócios tocadores” (art.º 18.º). Naturalmente essa escolha recaiu em João de Deus Teixeira, “hábil músico e distinto organeiro”, com certeza o principal impulsionador daquela orquestra que dele, aliás, retirou a designação. Aliás, o mesmo aconteceria poucos anos depois com a destacada “Orquestra Symaria”, criada e dirigida pelo grande músico Francisco Xavier Symaria. 

Nascido na freguesia de Santo Amaro, ilha do Pico, a 11 de Junho de 1852, terá vindo, ainda novo, residir para a Horta com sua mãe, dedicando-se exclusivamente à arte dos sons, quer integrando e organizando orquestras, quer tocando e dirigindo filarmónicas, quer ainda construindo e afinando órgãos e pianos. Encontramos, com efeito, registo da sua participação em agrupamentos musicais que acompanhavam récitas realizadas no Teatro União Faialense, de que é exemplo o drama sacro em três actos e oito quadros, São Francisco de Assis, da autoria de Eça Leal e estreado a 11 de Junho de 1884. Essa peça era ornada, segundo testemunho de Marcelino Lima, por 12 números de música, sendo nove deles trechos de ópera de Chopin, Gounot, Massenet e Augusto Machado, executados por uma orquestra dirigida pelo violinista João de Deus2  que, na altura, tinha 32 anos de idade.

 É muito provável que já então alguns dos seus companheiros da futura Orquestra João de Deus participassem com ele nestas iniciativas musicais que animavam a principal casa de espectáculos da Horta e as festas cívicas e litúrgicas do Faial, como são os casos de Henrique de Sousa Furtado, de Tomás Francisco de Medeiros e de José Goulart Cardoso. Estes, também fundadores daquela orquestra, seriam figuras destacadas no panorama musical faialense. Assim, Henrique de Sousa Furtado foi organista residente da Capela da Matriz da Horta e integrou, além daquela, outras orquestras que deram vários contributos em espectáculos teatrais ou em saraus músico literários; Tomás Francisco de Medeiros, exímio tocador de flauta, foi, em diferentes épocas, executante e ou regente das filarmónicas Unânime Praiense, União Musical, Nova Artista Flamenguense, Lira Cedrense, União Faialense e Euterpe, de Castelo Branco e ainda de outros agrupamentos musicais, designadamente Horta Band, Orquestra Tomás de Medeiros e Sexteto do Salão Eden3; idêntica dedicação e merecimento encontra-se em José Goulart Cardoso, tocador de clarinete – provavelmente um dos fundadores da Nova Artista Flamenguense – proprietário, na cidade da Horta, da Galeria Goulart (1900-1971) onde se revelou “o maior artista fotográfico de sempre” tendo exercido, “durante mais de 50 anos com grande competência e escrúpulo profissional o seu mister, produzindo inúmeros trabalhos de real valor, tanto em atelier como no exterior”4.

Regente e violinista da orquestra que tomara o seu nome, João de Deus Teixeira deu igualmente prestação valiosa a várias filarmónicas faialenses como executante e como maestro. A prová-lo está o facto de ter sido, em 1883, com 31 anos, o quinto regente da Artista Faialense, por ocasião das suas bodas de prata; de 1890 a 1893 foi regente (e tocador) da Unânime Praiense; dela passou à Nova Artista Flamenguense, tomando conta da sua direcção artística, e porque era um “músico de apreciáveis recursos muito contribuiu para o aumento do nível” da mesma, “tendo possibilitado, pelo seu esforço e conhecimentos que ela atingisse, sob a direcção do Symaria [que nela entrou em 1899] o primeiro plano e o tivesse mantido durante bastante tempo”5.  

Além de ser um dos músicos mais hábeis que existiam no Faial, João de Deus Teixeira era também um “organeiro muito hábil, tendo construído os órgãos das igrejas de São Francisco e da Praia do Almoxarife”6. 

Era confrade e sócio de várias instituições religiosas ou humanitárias, nelas exercendo cargos de responsabilidade, de que são exemplo o de mordomo da Confraria de Nossa Senhora da Boa Viagem ou o de presidente da Assembleia Geral da Associação de Socorros Mútuos Artista Fayalense. 

Faleceu na sua casa da Rua Advogado Graça n.º 5, em 19 de Dezembro de 1906, na pujança da vida, pois contava 56 anos de idade. 

Havia escrito o seu testamento que registou, perante cinco testemunhas no cartório de Domingos Machado Soares em 11 de Abril de 1904. Não sendo possível transcrevê-lo integralmente, aqui ficam apenas alguns excertos mais curiosos. Começa assim: “Eu, João de Deus Teixeira, casado, reparador e afinador de pianos (…) declaro que achando-me em meu perfeito juízo, clara inteligência e livre de toda e qualquer coação, disponho da minha última vontade e faço o meu testamento escrito por mim da forma que se segue: – Sendo cristão, católico, apostólico romano, crença em que vivo e nela espero falecer, quero que, em falecendo, o meu funeral e enterro seja feito decentemente mas sem aparato. – Desejo que me vistam à Carmo, ordem a que eu pertenço e que para as alças do caixão se convidem seis pobres que pertençam à mesma ordem e que conduza a chave o Venerável. – Desejo que se alguma filarmónica tiver a delicadeza de assistir ao meu funeral e enterramento que não toquem; que sendo possível depositem o seu instrumental em um quarto da casa da minha residência e acompanhem formados no lugar competente. A essa filarmónica ou filarmónicas lego, como lembrança, as músicas do meu reportório que no meu arquivo se acharem lacradas. – Quero mais que o resto das músicas que me pertencem me sirvam de cama e travesseiro dentro do meu caixão e que a minha rabeca baixe também comigo à sepultura”. Rejeita quaisquer responsos cantados, apenas deseja as “rezas do costume”, deixando os sufrágios por sua alma “à descrição e vontade de minha mulher em quem tenho plena confiança”. Como não tinha “ascendência nem descendência”, legava 10 mil reis a um afilhado, ficando “o remanescente” para sua mulher, Filomena de Sousa Teixeira que instituía sua “única e universal herdeira”, incumbindo-a de várias diligências, a última das quais era a de “mandar publicar este testamento, tal qual se acha escrito, num dos jornais desta cidade oito dias depois do meu enterramento”7. Não sei se esta publicação se fez, apesar de na notícia do falecimento se aludir àquela sua vontade. As outras disposições quanto ao funeral foram cumpridas, tendo nele tomado parte as colegiadas da Matriz e Conceição, Ordem 3.ª do Carmo, Sociedade Orquestra João de Deus e muitas pessoas das suas relações, sendo “o cadáver conduzido na carreta da Associação de Socorros Mútuos Artista Faialense, que era levada por membros das filarmónicas Artista Faialense e Real Sociedade União Musical, a que se agregou o sr. Francisco Xavier Symaria, regente da Flamenguense. O ataúde era ladeado da Ordem 3.ª do Carmo, conduzindo a chave o Comissário sr. padre João Pereira da Silva”8.   

O autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico 

1 O Açoriano, 4 Outubro 1891
2 Lima, Marcelino – O Teatro na Ilha do Faial, p. 66
3 Cf. Ribeiro, Fernando Faria, Nos Cem Anos da Filarmónica Euterpe de Castelo Branco, pp.81-83, Horta 2012
4 Correio da Horta, 11 de Abril de 1955
5 Gaudêncio, Manuel – Filarmónica Nova Artista Flamenguense, Boletim do NCH, vol.6, p.142
6 Correio da Horta, 16 Abril 1957
7 BPARJJG, Administração do Concelho da Horta, Livros de Registo de Testamentos n.ºs 80 e 81, fls. 1-4
8 O Telégrafo, 20 Dezembro 1906
 

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