“Saberemos que foi um bom presidente!”

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Na semana em que Aníbal Cavaco Silva termina as suas funções como Presidente da República, a minha crónica dedica-se-lhe necessariamente. Poderão alguns pensar que o faço por ter sido sua mandatária nas duas candidaturas à Presidência ou por ter sido sua consultora para a Ética da Vida, para a Agricultura e para as Pescas, por lealdade institucional ou por estima pessoal. E todas estas motivações o justificariam mas não são, de facto, as decisivas.
Determinante mesmo, porque ultrapassa a dimensão meramente pessoal e se afirma no plano nacional, é o facto de Cavaco Silva ter moldado fortemente a vida política e socioeconómica portuguesa durante 20 anos: 10 como Primeiro-Ministro e outros 10 como Presidente da República. E foram, obviamente, os votos dos portugueses que sempre o elegeram, sendo Cavaco Silva o político mais votado no Portugal democrático: obteve duas maiorias absolutas que o conduziram a Primeiro-Ministro – o que nenhum outro conseguiu até à data – e mesmo na última reeleição presidencial, tradicionalmente inferior à da primeira candidatura, ganhou com uma percentagem superior à da recente eleição de Marcelo Rebelo de Sousa.
Este é certamente um problema para as nossas elites intelectuais, insufladas por uma comunicação social que há muito optou pelo perfil progressista e que assim, em conjunto, vão promovendo e despromovendo pessoas e causas que escapam a estes estreitos parâmetros. Os nossos fazedores de opinião pública nunca aceitaram o rapaz de Boliqueime, simples mas inteligente, tímido mas perspicaz, tranquilo mas pragmático, introvertido mas afectuoso. Como ousou pretender à aristocracia política?! Não tinha uma biblioteca – diziam. Além disso, a política também não aprecia pessoas de convicções fortes que apenas as subordinam aos deveres institucionais. São imunes a pressões e agem sempre de acordo com o que interpretam como interesse nacional. Nos Açores, onde os políticos regionais se unem para o acusar de ser inimigo da autonomia, Cavaco Silva ganhou sempre, mesmo quando, em 1996, perdeu as eleições presidenciais, o que deveria fazer estes nossos destacados políticos pensar… Foi o povo que sistematicamente se enganou em relação a Cavaco Silva desde 1985?!
Enquanto Primeiro-Ministro foi determinante para a construção das infra-estruturas do país, para a evolução de uma economia estatal para uma economia de mercado, para a estabilização monetária, etc., numa actuação em todos os sectores que mudou o rosto do país, para um Portugal moderno. Enquanto Presidente foi fiel à cooperação estratégica com vários Primeiros-Ministros e, mesmo quando esta se revelava unilateral, promoveu a estabilidade política por todos os meios que tinha ao seu alcance como condição para evitar uma maior degradação da situação socioeconómica do país, constituindo ele próprio factor de estabilidade na grave situação do terceiro pedido de ajuda externa do país. Foi o Presidente que mais esteve presente no país dos mais distantes e esquecidos, fora das grandes cidades, nos arquipélagos, nas nove ilhas dos Açores.
Termino citando a insuspeita Directora do Jornal de Negócios, Helena Garrido: “A maioria hoje não concorda, no futuro saberemos que foi um bom Presidente.”

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