
Carta escrita ao Núcleo dos Combatentes de Torres Vedras, que posteriormente teve a gentileza de responder que, apesar da maior boa vontade, não lhes é possível procederem à investigação solicitada por falta de melhores elementos.
Lamentavelmente não existem outros!
Exmos. Senhores
Há uma série de anos que procuro saber de um indivíduo de Torres Vedras a quem assisti num acidente com uma viatura militar, no norte de Cabo Delgado, em Moçambique e que passo a pormenorizar com os elementos que ainda tenho de memória.
Ocorreu num domingo, 24 de Agosto de 1970, estava eu como sargt. Enfermeiro na companhia 2447 aquartelada no Nairoto, ao norte de Montepuez depois de 11 meses em Miteda. O Nairoto era um ponto de passagem para o norte e por isso prestávamos segurança às companhias que ali passavam, sobretudo àquelas chegadas recentemente de Portugal, bem como às enormes colunas de viaturas civis que faziam o reabastecimento de todo o norte de C. Delgado.
Assim, nesse domingo, uma secção da minha companhia comandada por um Furriel atirador, curiosamente meu conterrâneo e companheiro de escola primária que se ausentou desta Ilha do Faial, nos Açores, aquando da erupção do vulcão dos Capelinhos, ocorrida em 1957/58. A Companhia à qual ia prestar segurança tinha acabado de chegar de Moçambique, com destino a uma localidade de nome Nazombe, junto ao rio Rovuma, na fronteira com a Tanzânia, para aí montar um aquartelamento, visto que era um ponto de infiltração de guerrilheiros provindo exactamente da Tanzânia, uma vez que não havia nenhum aquartelamento por perto, naquela zona. Tornava-se a picada que servia o Chichano, também uma zona bastante complicada. A nova companhia era comandada por um daqueles capitães milicianos, feitos à pressa, pois havia falta de oficiais do quadro para comandar companhias de intervenção e então, lá iam os milicianos. Tratava-se de um Eng.º Químico que, coitado, estava a braços com aquela empreitada, e que teve que se haver com o trágico começo que refiro de seguida.
Saídos do Nairoto após o almoço, tomaram a dita picada sem sobressaltos, seguindo as indicações do meu experiente camarada António Martins de Freitas. Levavam as suas viaturas com o pessoal e todo o material necessário para instalação do aquartelamento. Em cima de uma “Berliet”, por falta de experiência, levavam um atrelado tanque de água cheio até meio, contra tudo que era regra, pois, ou se levava completamente cheio, ou então completamente vazio. Mais ou menos a uns 30 kms. do Nairoto e a uns seis de um aldeamento mais a norte, de nome Révia, que eu conhecia bem e onde estava um polícia branco a quem bastas vezes tratei, numa série de curvas e contra curvas da picada que se serpenteava pelo meio de machambas cultivadas onde sobressaíam troncos de mais ou menos meio metro de altura, das árvores abatidas, a água do atrelado balanceando, fez com que o condutor perdesse o controlo da viatura que capotou, matando-o logo e causando 16 feridos sem grande gravidade e mais 4 em miserável estado, sendo o pior, o jovem soldado de Torres Vedras!
Eram mais ou menos seis da tarde, preparava-me eu para jantar na cantina do famoso caçador profissional em todo o norte moçambicano, “Nunes do Nairoto”, quando, de rompante, entra pela porta de armas o “Unimog” do Martins de Freitas que vinha de pé ao lado do condutor, de G3 em punho e que correu imediatamente para a pequena messe dos oficiais, trazendo com ele o Capitão da nova Companhia. De imediato percebi que devia ter havido chatice.
Como responsável pela saúde da minha Companhia, na ausência de médico e dada a circunstância, dirigi-me à messe onde então ouvi todo o relato e assisti ao pânico do novo Capitão que não sabia o que fazer. Naquele dia, na minha Companhia tinha comigo apenas um soldado maqueiro porque os 3 cabos enfermeiros estavam ausentes, 2 em operações e 1 de férias e eu, segundo o regulamento, não era obrigado a sair do aquartelamento a não ser a nível de toda a Companhia. O meu Capitão (oficial de carreira) olhou para e mim e questionou-me: Oh Diniz, você não quer ir lá? No mesmo instante o Capitão da outra Companhia, lacrimejante, fez-me o mesmo pedido. É claro que não podia ficar indiferente a uma situação daquelas, pois nunca mais teria paz se o não fizesse. Então, mandei chamar o maqueiro, um moço extraordinário, algarvio, de nome Salas, de quem nunca mais soube até hoje! Pedi-lhe para ir ao posto de socorros, enchesse as 5 bolsas de enfermagem que nos sobravam, com tudo o que era necessário naquelas circunstâncias. Petidinas, anti-coagulantes, antibióticos, desinfectantes, compressas, ligaduras, adesivos, linhas de sutura, sistema de soro, material cirúrgico, etc., etc., de modo que nada faltasse.
Entretanto, pediu-se uma evacuação de zero horas para a pista do Nairoto e pediu-se um médico ao Batalhão, em Montepuez. De nada servia pedir um helicóptero, pois não operavam de noite no mato. Feito isto, lá fomos a caminho do local do acidente, onde chegámos por volta das 22.30 horas.
Pelo caminho cruzámo-nos com um “Mercedes”, que encostou ao “Unimog” em que íamos. Saltei com o maqueiro para a “Mercedes” para rapidamente avaliarmos a situação dos 16 feridos ligeiros que vinham para o nosso aquartelamento. Encostado ao taipal, vinha o corpo do condutor morto, embrulhado numa manta, toquei-lhe com o pé e perguntei: este é o que lerpou? (o que a violência da guerra faz aos homens), bom, ia levando um tiro do soldado novato (checa, como se apelidavam na gira da guerra os novatos), que estava ao lado do corpo, que, branco como papel, me apontou a G3 e disse: não faça isso!
Passei um calafrio, mas, com firmeza, desviei-lhe o cano da G3 ao mesmo tempo que lhe berrei: tira já a bala da câmara, vais ver daqui a uns meses como é que isto funciona! Ninguém se mexeu, só se ouviu o barulho das culatras a extraírem as munições, pois todos estavam borrados de medo! O Salas voltou com eles, depois de lhe fazer as recomendações que achei importantes e então segui caminho. À chegada, de lanterna em punho, percorri os 4 feridos graves para avaliar do seu estado e começar a tratar do mais grave para o menos grave, injectando petidina neles todos, para alívio das dores terríveis que deviam ter, passadas tantas horas do acidente. O Furriel enfermeiro deles, quando lhe perguntei o que já tinha feito, respondeu-me que todo o material vinha encaixotado e não sabia onde estava!!! Nem se chegou para ajudar, talvez porque o medo incapacita muitas vezes e os primeiros meses de mato atemorizam qualquer um! Ali, agora, não se podia era perder tempo!
Daqueles 4 feridos o mais grave era o rapaz de Torres Vedras, deitado como todos os outros sobre panos de tenda, ajoelhei-me ao seu lado para me aperceber melhor do seu estado lastimoso, tinha um braço partido e uma perna e quando lhe desapertei o cinto e lhe comecei a baixar as calças, era uma papa de sangue e urina, a bacia estava partida, a bexiga rota, entrara-lhe um ferro da grossura de um dedo, mesmo ao lado do ânus e saíra rasgando o saco do escroto, deixando pendurado o testículo direito, suspenso pelos canais deferentes mais ou menos a meia coxa, tudo isto, junto com a aliança que trazia no dedo, sobressaía agora à luz dum luar de lua cheia, num céu límpido.
Fui falando com ele, vomitou-me por cima, só me dizia que ia morrer, ao que eu lhe respondia, não morres nada pá. Perguntei-lhe de onde era e quando me disse eu sou de Torres Vedras, então disse-lhe, terra de bom vinho. Vais ver que um dia ainda vou lá beber um garrafão contigo. Desinfectei tudo que pude, recolhi o testículo, tudo com o maior cuidado, compressas, ligaduras e fazer um cruzado de escroto para garantir a segurança e isolamento da zona tratada, anti-coagulante, antibiótico, soro, tala para o braço a para a perna e, passei à frente…
E agora levá-los para o Nairobo a 30 kms!? Tinha 3 “pinchas” (“Unimogues” pequenos) num e num rasgo, olhei bem a altura dos bancos transvessais da caixa das viaturas e calculei. Cabem aqui debaixo, um de cada lado, duas cabalas (estrados baixinhos que os nativos usam para dormir em cima dum entrelaçado de cânhamo), chamei um condutor e disse-lhe: “Vai rápido com mais alguém por esta picada até a um aldeamento chamado Révia e diz ao polícia que o Furriel Diniz, está aqui no mato a socorrer feridos, ele que mande 4 cabalas das mais baixinhas que tiver”.
Quando chegaram, já os feridos estavam tratados e embrulhados nos panos de tenda e em cobertores. Deitados em cima das cabalas, quis Deus que coubessem réz-vés debaixo dos bancos dos “Unimogues”. Amarramos os pés das cabalas aos pés dos bancos das viaturas, mandei saltar um soldado para cima de cada banco segurando os sistemas de soro e pedindo que controlassem tudo pelo caminho, recomendei cuidado aos condutores. À 1 hora da manhã, chegou tudo ao mesmo tempo, feridos, avioneta e o médico de Montepuez (Dr. Mineman, do Porto, onde é bem conhecido), relatei-lhe cada situação e tudo que tinha feito, ele olhou para mim e disse-me: “não vim aqui fazer nada porque você fez tudo o que eu iria fazer!!! Consolou-ma a alma!
Em Outubro, vim de férias a Lisboa, entrei no avião e sentei-me no lugar marcado e a meu lado sentou-se um Tenente cujos galões tinham fundo roxo, como eram os galões dos médicos. Eu vinha desfardado e começámos a conversar! Chamava-se Braga e era médico cirurgião, Director da Enfermaria/Hospital de campanha em Mueda, trazia consigo o filho de 15 anos que viera vê-lo. Contei-lhe da evacuação que tinha feito mais ou menos 2 meses antes e descrevi-lhe o caso do rapaz de Torres Vedras, lembrava-se e contou-me que o tinha operado e que ele estava bem e sem problemas, pois tudo tinha sido resolvido. Gratificante! Agradeci a Deus por nos ter posto a sua mão por baixo!
Em todos estes anos tenho perguntado a mim próprio o que será feito daquele companheiro de infortúnio!? Há dias um amigo meu da Ilha do Pico, que foi também combatente em Angola como Alferes, deu-me o vosso contacto e quase me garantiu que através de vossa Organização provavelmente se conseguiria algum contacto deste indivíduo! Se for vivo, já não poderei beber com ele o tal garrafão mas seria muito gratificante poder dar-lhe um abraço!!
Peço que me perdoem a extensão desta “quase crónica” pois não tenho outros elementos senão estes que relato e que já pensei enviar ao jornal “Badaladas” da vossa terra.
Agradeço-vos a paciência para lerem tudo isto, bem como o que possam indagar sobre aquilo que vos peço.
Penhoradamente e com os melhores cumprimentos e o bem hajam pelo vosso trabalho.
Subscrevo-me,
Jorge de Roches Diniz
Horta – Açores
[email protected]













