Sobre A Viagem Autonómica, de Filipe Tavares e Nuno Costa Santos

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Sempre achei que a Autonomia dos Açores ou é um fenómeno cultural ou não é coisa nenhuma. Bem sei que não seria exatamente esta a perspetiva de Caetano de Andrade Albuquerque (1844-1900), Aristides Moreira da Motta (1855-1942), Gil Mont´Alverne de Sequeira (1859-1931) e de outros pioneiros da Autonomia, pois que em finais do século XIX defendiam sobretudo uma autonomia política, administrativa e económica para o arquipélago. 

Hoje sabemos que a Autonomia, em todas essas vertentes, é a solução correta para se prosseguir um caminho português nos Açores e a forma capaz de responder aos justos anseios de liberdade e auto-governação dos Açores. Foi preciso esperar pelo 25 de Abril de 1974 para que tal fosse possível. É que, por parte do poder central, a Autonomia foi sempre coisa mal-amada e que não passava de letra morta: primeiro, pelas cortes, depois pelos governos saídos da República e, durante meio século, pela ditadura do Estado Novo. E, já em pleno regime democrático, houve um primeiro-ministro que não morria de amores pelo processo autonómico, e que hoje…

Por conseguinte, é preciso aprofundar a Autonomia e saber adaptá-la às necessidades efetivas que o progresso impõe. Há que ser mais reivindicativo em relação ao poder central, pois, na minha opinião, continuamos a ser uma Região mais administrativa do que autónoma. Por isso é necessário reforçar o poder legislativo regional e aperfeiçoar mecanismos de intervenção regional de política financeira. Só que tudo isto terá que ser alicerçado numa base cultural, devendo a cultura ser aqui entendida como fator de liberdade individual e motor de desenvolvimento coletivo. Isto é, uma ideia de autonomia cultural que pressupõe que todos somos portadores de cultura, fazedores de cultura.

Vem tudo isto a propósito de “A Viagem Autonómica” (Ventoenca-nado Produções, 2013), projeto composto por um DVD e um livro com assinaturas de Filipe Tavares e Nuno Costa Santos. O protagonista do filme é Gonçalo Cabral, interpretado pelo ator Frederico Amaral, que escolheu o tema da Autonomia para a peça final do curso de teatro. De mochila às costas e acompanhado pela sua “Vespa”, o jovem percorre os Açores em busca de uma definição possível de Autonomia. Atento ao fascínio da paisagem e ao lado mítico, misterioso e simbólico das ilhas, ele consulta bibliotecas e arquivos, entrevista especialistas, fala com investigadores, políticos e gente comum. 

Com claros propósitos pedagógicos e didáticos, esta viagem pela Autonomia é aqui entendida como uma revelação e uma forma de procura e de (re)descoberta dos Açores: a sua história, o seu imaginário e a sua cultura. O filme capta, de forma factual mas afetiva, o “espírito de lugar” açoriano e, articulando passado com presente, ancestralidade com modernidade, sonda a alma açoriana, com alusões de natureza geográfica, histórica, política, cultural, científica e antropológica. E questiona o significado de viver hoje nestas ilhas, partindo em busca da identidade coletiva açoriana e de uma nova definição da açorianidade, conceito criado por Vitorino Nemésio em 1932.

Ler o livro e ver o DVD de “A Viagem Autonómica” é um ato de apetecível fruição. O pack composto pelo Livro e DVD, está disponível em duas versões: Português e Inglês. Profusamente ilustrado e com excelente grafismo e acabamento, o livro lança olhares sobre alguns dos acontecimentos históricos mais marcantes dos Açores, traça breves perfis biográficos dos “Protagonistas da Autonomia”, terminando com algumas entrevistas a personalidades com responsabilidades no processo autonómico açoriano. O filme lança visões nítidas e profundas sobre as ilhas. De referir a belíssima realização de Filipe Tavares, as imagens de grande beleza plástica, a dinâmica da edição, o cuidado com os planos, a eficácia dos enquadramentos, a nitidez do olhar: digo, a transparência, a harmonia, a luz prodigiosa, a beleza deste trabalho de inegável qualidade. O DVD está legendado em português, inglês, francês, espanhol, italiano e alemão e para além do filme, traz também três extras sobre os palácios de Sant’Ana, Capitães Generais e os edifícios do Parlamento Açoriano 

 

P.V.P. – 30€

Consulte os locais de venda emwww.ventoencanado.pt

P. S. “A Viagem Autonómica” terá continuidade, já que Filipe Tavares está a gizar vários e variados projetos. Por exemplo: ele pretende deslocar-se às comunidades açorianas espalhadas pelo Canadá, Estados Unidos da América, Bermuda e Brasil para uma série de exibições públicas (seguidas de debate) daquele filme. Num outro projeto, chamado “Carta de Chamada”, a ideia é realizar uma série documental, desta vez com Gonçalo Cabral a fazer itinerância pela diáspora açoriana que, segundo Filipe Tavares, trata-se de uma missão de resgate e enraizamento dos açor-descendentes, através do contacto com novas referências do arquipélago. Mas para mim, cinéfilo compulsivo, vejo com muito agrado a pretensão daquele realizador em querer mostrar a todos os açorianos o filme “A viagem Autonómica” através de um circuito de cinema ao “Ar Livre” pelos 19 concelhos dos Açores durante o Verão de 2014. Que não faltem apoios para quem, dotado de talento, tem tamanho espírito empreendedor.

 

                                 

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