Sobre Açores, o Segredo das Ilhas, Narrativa de Viagem, de João de Melo

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Em (quase) formato de “pocket book” acaba de ser editado Açores, o Segredo das Ilhas, Narrativa de Viagem (D. Quixote, 2016), de João de Melo. Teve uma primeira edição no ano de 2000, de capa dura, em grande formato e ilustrado com fotos e quadros de autorias diversas. Revisto e acrescentado (com os textos “O Arco das Ilhas” e “Sobre este mar da minha infância”), o livro continua a ser um convite à descoberta das ilhas, e saímos da sua leitura com os olhos encharcados de tanta luz, de tanta cor… Agradou-me sobremaneira a escrita intensa e iluminada, fascinante e metafórica deste livro. E isto porque, para João de Melo, a ilha não é só beleza, sedução e fascínio; é, sobretudo, segredo, melancolia, sonho e utopia. Sendo as ilhas insondáveis e misteriosas na sua formação e existência, optou o autor por agarrar – e bem – o lado mítico, sagrado, simbólico e lendário das ilhas açorianas. Estamos perante uma obra dificilmente classificável. Não se trata propriamente de um livro de viagens, apesar de resultar de duas viagens que, no Verão de 1997, o autor empreendeu por cada uma doas nove ilhas do arquipélago; muito menos será um diário, um relatório ou um roteiro turístico, se bem que João de Melo, munido de cadernos de viagem, tenha neles feito anotações, com pormenor e minúcia (sei do que falo porque acompanhei o escritor na viagem que empreendeu à ilha do Faial e… “espiei-lhe os movimentos e o caderno de notas de capa preta”) (1), anotações de natureza geográfica, histórica, social, factual, cultural e antropológica; não será também só um livro de impressões do vivido e do sentido, ainda que ele seja o registo de quanto a observação do seu autor pôde detectar no contacto directo com gentes e terras açorianas. João de Melo escreveu sobre o que viu, sentiu e ouviu, recordando tudo o que sabe (que não é pouco) sobre os Açores. Para mim, Açores – o Segredo das Ilhas é a expressão de sentimentos e emoções sentidos pelo autor perante a viagem como forma de procura e de descoberta. Sendo ilhéu, João de Melo sabe que o melhor da ilha é a própria ilha. Por isso ele criou “os verbos e os adjectivos do mar”. Porque visitar os Açores não é só ver paisagens, é, sobretudo, sentir atmosferas. Por isso este autor não capta apenas o encanto de paisagens luxuriantes e o espanto de cenários exuberantes – ele vai fundo no imaginário, no tempo e na alma dos açorianos. E fá-lo, de forma contemplativa e impressionista, sob diversos ângulos de observação e enquadramento (com visões de fora para dentro, de dentro para fora e de dentro para dentro das ilhas). E é precisamente aqui que este livro marca uma diferença em relação, por um lado, aos escritos de alguns conhecidos viajantes que, no século XIX, sulcaram os mares açorianos e visitaram as ilhas. Por exemplo: o oficial sueco Jean Gustave Hebbe (1800), o médico norte-americano John W. Webster (1820), o oficial inglês captain Boid (1832), os irmãos ingleses Joseph e Henry Bullar (1838, nesse livro espantoso que dá pelo título de Um inverno nos Açores e um verão no Vale das Furnas), o zoólogo francês Henri Drouet (1857), o naturalista Alberto I, príncipe de Mónaco (1879), ou a jornalista norte-americana Alice Baker (1882). Por outro lado, este livro de João de Melo marca também uma diferença em relação a algumas obras de referência do século XX como, por exemplo, As Ilhas Desconhecidas (1926), de Raul Brandão, Mês de Sonho (1926), de Leite de Vasconcelos, Terras de Maravilha (1928), de Oldemiro César, Primavera nas Ilhas (1935), de Hugo Rocha, ou Mulher de Porto Pim (1983), de Antonio Tabucchi. Repito: João de Melo leva vantagem em relação aos nomes citados: é que ele vê os Açores de fora para dentro, de dentro para fora e de dentro para dentro. Ouso mesmo aqui afirmar que, mutatis mutandis, em certos temas abordados, João de Melo vai mesmo mais longe do que Raul Brandão de As Ilhas Desconhecidas – o livro mais belo que alguma vez já se escreveu sobre os Açores. É óbvio que, em Açores – o segredo das ilhas, o escritor se sobrepõe claramente ao visitante. E o resultado salta à vista: estamos perante uma escrita de palpitante qualidade literária. Dou-vos apenas estes pequenos exemplos: os piratas e os corsários que infestavam os mares dos Açores são, para João de Melo, “os bandidos do mar”; os velejadores que aportam à cidade da Horta são por ele nomeados de “os andarilhos do mar”… E adivinhem sobre o que ele escreve quando escreve sobre a “basílica de lava vulcânica”, “a tristeza dos olhos dos bois”, os “olhos tímidos dos garajaus”, ou os “lugares remotos do inconsciente”… Derramando, nestas páginas, a sua (e nossa) açorianidade telúrica, João de Melo capta, neste livro, a policromia dos tons, dos cambiantes, das simbioses de luz e cor. Guardemos no escaparate e no coração este livro muito belo e esta escrita de um impressionismo literário. E saibamos o que é, verdadeiramente, escrever com os olhos da memória. (1) Vitorino Nemésio, Sob os signos de agora. Temas portugueses e brasileiros. (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932). “Raul Brandão, íntimo”. Recorde-se que, em Junho de 1924, Nemésio acompanhou Raul Brandão na viagem Lisboa-Açores a bordo do navio “S. Miguel”.

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