Teremos que mudar, mas falta-nos a vontade

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Somos um país cada vez mais envelhecido e isso tem e terá imensas consequências no nosso futuro – e também na forma como vivemos a velhice. 86 anos no caso dos homens, 88 no caso das mulheres. Em 2014-2016 foram essas as idades em que se registaram mais óbitos. No mesmo período duas em três das pessoas que morreram tinham mais de 80 anos. No caso das mulheres foram mesmo três em cada quatro óbitos os que ocorreram depois dos 80 anos.

Habitualmente olhamos para a esperança de vida e celebramos, com razões para celebrar, a extraordinária evolução registada em Portugal. De acordo com um relatório do INE, a esperança de vida à nascença, era em 2015 de 80,62 anos. Nos últimos dez nunca a esperança de vida deixou de aumentar, sendo hoje 2,44 anos mais elevada do que era há uma década. Em média estamos a ganhar cerca de três meses de esperança de vida por ano.
Mas há um outro dado importante que poucas vezes se refere: a esperança de vida aos 65 anos está agora nos 19,31 anos. Ao pensar que a idade média das reformas anda em média nos 63 anos (62,8 no caso dos funcionários públicos em 2016, 63,1 para os restantes trabalhadores em 2015), concluímos que devemos esperar viver um pouco mais de 22 anos como reformados. Este número faz-me impressão – e não me impressiona apenas por não saber como iremos financiar tantos anos com tantos portugueses a viverem como pensionistas. Impressiona-me também pelo desperdício que representa. Porventura um desperdício pesado para a economia e doloroso para os próprios. A regra, nos dias que correm, é usar as reformas antecipadas como forma de reestruturar as empresas. Ou simplesmente de as renovar
Há algum tempo que penso que está quase tudo errado neste raciocínio. Está errado para as empresas, pois muitos dos trabalhadores que dispensam, mesmo não tendo a criatividade e a energia dos mais novos, possuem uma experiência que lhes faz falta, uma experiência que bem poderia “temperar” toda a frescura e ideias novas trazidas pelos jovens.
Infelizmente, quando olhamos para este estado das coisas, quando queremos discuti-lo, por regra nunca saímos do debate em torno dos problemas de financiamento da segurança social. Parece que a única pergunta que faz sentido é “como é que vamos pagar tantas pensões?” ou, mais concretamente, “onde é que vamos buscar mais dinheiro?”
Há muita coisa para mudar. Nalgumas frentes, quase tudo. Mas pressinto que nos tempos mais próximos não quereremos mudar nada, e não apenas por causa do bloqueio político. Na verdade, estamos tão habituados a mudar apenas sob pressão que já nem sabemos fazer de outra forma. Pior: falta-nos energia para isso, pois os mais idosos dificilmente serão agentes de mudança e os mais novos têm demasiados problemas hoje para pensarem nos que terão amanhã. 

 

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