Reflexões Crónicas – A Eleição

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TI

TI

O dia da eleição, enfim, tinha chegado.

Á urna!

Escuro ainda, Antonio André do Val
Levantou-se da cama, azedo, estremunhado.
Passára a noite mal.
Depois de amaldiçoar os ratos e o calor,
O velho regedor
Persignou-se e rezou o Credo e o Padre Nosso,
De pé, a bocejar, segundo o seu costume;
E, erguendo a voz: “Mulher, toca a accender o lume.”
Sacudiu-a. “Vá, vá, toca a arranjar o almoço.”

Foi á janella olhar: rompia a madrugada;
Os gallos, á porfia,
Entravam a acordar a aldeia socegada,
Como a dar o signal d’aquelle grande dia;
O cão ladrava, inquieto, aos saltos pela horta,
Parecia estar prompto a acompanhar o dono;
Té a burra na loja, afeita á paz e ao somno,
Levára a santa noite a escoicear a porta.
Tudo isto eram signaes d’uma real victoria…
Que esfrega! Commandar trezentos eleitores!…
Mas subito esfriou em meio d’essa gloria;
Um “não sei quê no ar” toldava-lhe os humores.

E deu em praguejar, coçando na cabeça.
A mulher, meio erguida, a espreguiçar-se, “Antoino!”
Exclamou. “Anjo Bento! A Virzem te esclareça.
Manda essas inleiçães a casa do dimoino!”

Elle era homem de fé e usava o seu rosario;
Mas em tempo de lucta, em tempo de eleições,
Que fossem bugiar os santos e o vigario.
Não obstante rezava as suas orações.
“Sempre era bom.” E até lá uma ou outra vez
Promettia alumiar uma semana, um mez,
Algum santo sagaz que fosse do partido.
Isto era em caso grave, em eleição de risco.
O ultimo ganhára e fôra S. Francisco.
Ora o triumpho agora estava decidido,
Porem o regedor pensára na promessa.
Ha santo espertalhão que prega a sua peça,
Uns intrigam até, occupam-se de enredos;
Querem todos porem que se lhes unte os dedos.

Não é coisa que custe ahi um sacrifício,
Mas António do Val pagava com mãos largas;
Deixar-se-ia despir para vencer o Vargas,
Batel-o, derrotal-o, expol-o n’um supplicio.
[…]
Quando Antonio do Val na frente o descubria
Tomava ao largo, fulo, a resmungar. Nem vel-o!
Vargas cumprimentava. E o regedor: “Velhaco!
Rir d’uma auctoridade! Havemos ver um dia:”
E seguia, aprumado, a impôr-se á freguezia.

[…]

O dia da eleição não tinha já demora,
Porem o regedor sentia-se impaciente.
Ellechegára, enfim! Ia saber-se agora
Quem levava a melhor, quem era o mais valente.

A manhã clareára.
Ouvia-se tocar para a primeira missa.
Da cozinha sahiu um cheiro de lingoiça
E logo a Antonio André resplandeceu a cara.
Sentou-se á mesa, a rir, alegre, bem disposto.
“Que lingoiça, Ritinha! E o bolo… Que bom gosto!
Um almoço de rei!” Levasse o diabo os medos…
E enchia a boca bem, comendo com os dedos.
Dava de olho á mulher com ares de mysterio,
Namoriqueiro. “Ó Rita, olha que estou com fome!”
Mas n’isto poz-se em pé, de olhar em alvo, serio;
Foi ver ao oratorio o santo de seu nome
(Um santinho de pau, tristinho, denegrido)
E disse com fervor:
“Se eu venço esta eleição, prometto-vos, senhor,
Uma livra de cera.”
“Á custa do partido,”
Lembrou a Rita.
“Pois! Eu cá nan gasto nada,”
Segredou elle. “Irá na conta dos foguetes.”
E, fartante: “Ha-de ser de arrebentar… Cambada!
Meu Varguinhas, vás ter o mestre dos lembretes.”
“Olha – sabes que mais? – o carro atraz dos bois,”
Ponderou a mulher: “fala depois, depois…”
“Essa agora! Tambem tinha de ver…” Então
Não tinha o seu poder subido varios furos?
“Tenho-os aqui seguros!”
E fechava, nervoso, a cabelluda mão.
[…]
E, mudando de tom, inchando de vaidade:
“Vou-lhes hoje mostrar o que é habelidade!
Um home como eu de calculo e ardil
Mercia um dia ser… governador cevil!
Deputado talvez… Nan pasmes, creatura!
Muito bruto lá chega – e faz sua figura.”

Fôra aberta a arca immensa, a antiga arca cheirosa;
E, discorrendo sempre, o regedor vestia
O seu fato melhor, a roupa domingueira,
Que a mulher afagava, a olhar toda babosa.
No peitilho engommado a oiro reluzia,
O collarinho em pé cortava-lhe a papeira.
Com a sobrecasaca então o regedor
Peneirou-se. “Ó Rita, hem! cá isto é um senhor!
Traz cá o pente e a banha e aparta-me o cabello.”
Por fim sahiu á luz o audaz chapeu de pello,
Protegido da traça; e, todo aparelhado,
Elle empunhou altivo o guarda-sol coçado
E disse então de papo, as mãos sobre as ilhargas:
“Até logo. Has-de ver a cara do estudante,
D’orelha murcha… Ah, triste e desgraçado Vargas!…”
E sahiutriumphante.
[…]

Manuel Garcia Monteiro
[email protected]

Leia-se: Manuel Garcia Monteiro, “A Eleição”, in Rimas de Ironia Alegre, Boston, 1896, pp. 29-36.
Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral). g