Trojans no Parlamento Europeu

0
5

As suspeitas eram evidentes, mas havia ainda quem desvalorizasse a influência das forças extremistas. Os resultados destas eleições europeias vieram demonstrar que o cavalo de Troia instalou-se na Europa e não se vislumbra um antivírus que o possa abater tão depressa. 

O fenómeno tem dimensões diferentes consoante os países, mas ninguém duvida que o cancro tem ramificações por todo o lado. As matrizes são diversas, mas poderão vir a confluir num objetivo comum: acabar com o euro, destruir a UE, combater a imigração e cercear a democracia ou mesmo eliminá-la. 

No Reino Unido, os eurofóbicos ficaram em primeiro lugar; em França, a extrema-direita liderada por Marine Le Pen pretende retirar o país do espaço Schengen e reduzir os benefícios dos imigrantes. Se tivermos em conta que uma percentagem elevada dos seus votos foi obtida nas camadas da população com menos de 30 anos, o fenómeno pode não ser meramente conjuntural.

Mas a xenofobia estende-se por vários outros países, principalmente nos mais ricos, como a Holanda, a Dinamarca, a Áustria ou a Finlândia. Até na próspera Alemanha da senhora Merkel, o partido denominado Alternativa para a Alemanha poderá eleger 6 deputados que irão pronunciar-se a favor da saída da UE, irão defender o fim da política de resgates ou um euro só para um pequeno núcleo de países. No lado oposto, na Grécia, o partido neonazi, Aurora Dourada, ficou num surpreendente terceiro lugar, tendo um outro partido de esquerda radical ganho as eleições, o Syriza.

Apesar de toda esta reviravolta, a Europa mantém uma maioria que continua empenhada num caminho europeísta, mas os grupos tradicionais do Parlamento Europeu vão ter que coabitar com mais de uma centena de deputados eurocéticos, populistas ou extremistas (de esquerda e direita) num diálogo que não será nada fácil.

Esta dinâmica de contestação não é circunstancial. Ela representa uma forma de protesto não só contra determinadas orientações políticas, mas também contra determinadas formas de fazer política. A juntar a estes que se manifestaram nas urnas há ainda que acrescentar a grande maioria que optou pela abstenção, uma atitude cada vez mais identificada com um desprezo total por tudo o que cheira a política. Ou seja, está criado o ambiente propício ao aparecimento dos demagogos salvadores de pátrias que consideram infetadas, com as consequências previsíveis. 

O fogo cerrado que agora foi disparado contra a Europa irá virar-se de seguida para cada um dos respetivos países. Nas próximas batalhas eleitorais, os extremistas não deixarão passar a oportunidade para alargarem as suas áreas de influência.  

Os tempos que se avizinham não serão nada fáceis na esfera política. As forças defensoras da democracia, as que continuam a respeitar o ser humano independentemente da cor, raça ou religião, as que combatem o racismo e a xenofobia, continuam a ser maioritárias e acredito que serão capazes de fazer frente a todas estas investidas. Mas para combatê-las é necessário um maior empenhamento, uma maior atitude cívica. Só assim podemos obrigar a que a política europeia seja mais solidária, com um cunho social mais acentuado, esbatendo as diferenças abismais entre pobres e ricos. 

 

 

 

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO