Um Natal, dois Natais

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Há coisas que para andarem, têm de andar dentro de si mesmas. É o mecanismo do tempo, onde as roldanas dentadas que se encaixam na perfeição mordem a pressa de forma ritmada, igual, às vezes quase monótona.
O tempo anda como tem de andar, e um dia quando damos por isso estamos outra vez no Natal, o que quer dizer que depois do regresso das férias de verão, já falta menos para lá chegarmos outra vez.
Escrever sobre o Natal, em cima da hora pareceu-me um “cliché”. Por isso este texto foi escrito propositadamente em outubro, antes do bombardeamento de anúncios, modas que só agora percebemos que são moda e caixa do correio entupida com folhetos. O Natal é uma festa comercial como não há igual.
Se “O Natal é quando um homem quiser”, então que seja depois, quando vêm os saldos maravilhosos, como se não tivéssemos de ter feito contas e puxado pelo nosso melhor bom gosto, para darmos a prenda que o outro gosta, e não a que gostamos e que o outro tem de gostar. Natal também é fazer um esforço de disponibilidade, despindo a carga obrigatória do “Tenho que…”.
Há pessoas que criaram tradições e por isso sabemos o que nos vão dar. O Natal é dar com prazer, é saber que além das luzes da árvore (que dão um trabalhão a tirar), há uma especial que queremos que se acenda na cara de cada um a quem demos uma prenda. Há quem goste genuinamente do Natal. Há quem comece a vivê-lo cedo, mas aí, a não ser que optemos por objetos, temos aquele problema por exemplo da roupa de outono, desadequada para a função.
Para mim o Natal é uma saudade que se desfaz no momento da chegada. Em cinquenta anos de vida nunca passei um Natal “fora de casa” e vivo fora há trinta e dois anos. É a minha tradição de Natal. E enquanto o tempo anda como tem de andar, faço umas contas rápidas e apesar da lentidão que às vezes maldigo, abrigo-me na certeza de que hei de chegar, em voo direto, depois de algumas peripécias “Satescas”.
Estamos em dezembro e eu em outubro, no portal do tempo, num futuro que nunca mais chega, porque detesto estes meses pós calor, pós calção e t-shirt onde andamos de braços e pernas de fora, cheios de vitamina D, cor e luz até altas horas.
Quase no fim da página, ainda não sei bem como descrever as sensações do Natal. O estar junto, tendo estado separado, o estar junto quando se está sempre junto, a algazarra, os pratos feitos sem medida que viram restos até ao ano novo.
Goste-se ou não o Natal tem uma aura, um “je ne sais quoi” – expressão criada para explicar o inexplicável.
Embora o ditado exista, não se deve festejar o Natal antes do tempo, assim como não fazemos anos antes do dia. Mas podemos festejar o Natal também nos dias seguintes, num prazo razoável. Não tendo o dom da ubiquidade, (esse parece que só Deus tem) vou, ou melhor venho, e depois volto, ou seja regresso. Melhor que um Natal é ter dois. O tempo é amiguinho e eu tenho muita sorte. Feliz Natal!

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