Um postal da ilha

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TI

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Noite de Natal na Beira Interior. Chove. Depois da ceia, faz parte da tradição da minha família reunir-se no Adro da Igreja, junto ao Madeiro, para aquecer o corpo e a alma. Mas a chuva e o frio intenso mantiveram a família em casa, no quentinho da lareira. O meu irmão – que tem um fascínio enorme por publicações antigas – foi desfiando lugares, rostos, todas as perdas de uma memória viva. De seguida, mostrou-me um postal antigo da ilha do Faial. Suspensa sobre a imagem a preto e branco identifiquei o Monte Queimado, o Monte da Guia, a Igreja das Angústias e os edifícios das Obras Públicas. Apesar de estarem apagadas há muito, as vozes e as palavras, a imagem fala ainda. Será real? – pensei – observando as pequenas figuras em movimento no campo de futebol e o público, tão distanciados no tempo, referências ausentes, sobretudo para mim, que guardo no fundo do tempo outras memórias. A ilha surge-me assim, numa noite de Natal; desenha perfis de homens e mulheres sem nome e sem rosto; gente obscura que assiste a um qualquer evento desportivo. Mas esta imagem projeta em mim a consciência do Tempo e dos Lugares onde somos árvores com raízes precárias. Árvores dispersas; possibilidade errante. Questiono-me. Onde ressurgiremos quando deixarmos de ser? Aonde e de que forma, a imagem fixa a não-existência na materialidade do mundo? Não sei quem são estas pessoas, mas pelo vestuário infere-se que habitaram a ilha no início do sex XX. Chamadas de novo a participar na ignota memória, na noite de Natal, eis que elas próprias renascem no Tempo e no Espaço como partículas de luz. Aonde as levará esta viagem?

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DR

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