Uma rentrée tranquila

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A vida continua tranquila nestes últimos dias de Agosto que se vão sucedendo pacificamente no conforto da serenidade da estação… Se estamos de férias aproveitamos o muito tempo livre; se não estamos rentabilizamos o pouco tempo livre com mais um passeio, mais uma ida à praia, mais um convívio com amigos… Os graves casos deste verão não ousaram perturbá-la. O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, aproveitou a “borla” da Galp para ir a Paris ver a selecção jogar e não consegue vislumbrar qualquer conflito de interesses quando tem a tutela do diferendo que opõe o Estado à empresa acusada se ter uma dívida fiscal de 100 milhões de euros. Corrupção…? Juridicamente pode cair nesta categoria. Ingenuidade política? Difícil de compreender como um político assumido pode fazer este “erro de palmatória”. Mais fácil será pensar numa total limitação intelectual – a concluir pela argumentação tão obtusa quanto infantil da auto desculpabilização – ou absoluta cega obsessão para ir a um (de facto foram dois) jogo de futebol “à pala”. Num outro contexto político estaria demitido (ou teria sido discretamente convidado a apresentar a resignação); no presente contexto político foi defendido pelo governo a que pertence, depois de ter sido obrigado a pagar a viagem (como se fosse só um acto que estivesse em causa e não a atitude) e, sendo “remodelado” na próxima ocasião, o que permanecerá sempre é que o Primeiro-Ministro aceita este tipo de procedimentos e que o próprio não lhes encontra qualquer mal. O Banco Central Europeu chumba 8 personalidades propostas pelo Governo para o Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos por excederem o limite de cargos em órgãos sociais de outras sociedades – o banco público que (impensável ?!) se encontra numa situação obscura que o Governo tem deixado continuar e agravar desde há meses –, e manda alguns outros (3 dos 7 administradores executivos) fazer um curso de formação antes de iniciarem funções. A humilhação do BCE é assim feita a duas velocidades: alguns nomes são inabilitados para as funções (já se dedicam a um excesso delas) e não são aceites; alguns outros têm de fazer um curso porque são inabilitados (sem habilitações) para as funções (o curso de meia dúzia de dias é irrelevante para o trabalho de hercúlea responsabilidade a realizar, sendo apenas uma forma mais suave de dizer o mesmo: são inabilitados). Mas nada que preocupe o governo: muda-se a lei, aumentando-se o número de administradores e, já agora, aumenta-se também o seu ordenado – o que é uma grande habilidade! Todos os partidos vão avisando, a diferentes tons, que não vão alinhar nessa ideia de fazer leis à medida das pessoas. Mas nada que preocupe o governo: cria-se um grupo de consultores e os designados “inabilitados” pelo BCE já têm uma cadeira para se sentar. Num outro contexto político, a elite dos trabalhadores portugueses que a Intersindical representa e os seus apaniguados partidos de esquerda já estariam na rua a desencadear uma revolução. Mas o tempo quente só convida à languidez de uma morna cabo-verdiana ou do cante alentejano ou, quanto muito, a banhos…, nada de agitações; no presente contexto político, o Primeiro-Ministro é o chefe dos acrobatas (malabaristas e equilibristas) e a sua trupe aplaude, ele que é o reputado autor da “geringonça”. Depois da tranquilidade com que assistimos a estes escândalos apenas permitidos à esquerda auto-tolerante e nunca à intolerante (ou intolerada?) direita – dizem –, já não há nada que nos alvoroce no horizonte da nova estação. A “rentrée” não trará nada de novo, nem mesmo entre nós que, chamados a eleger um novo governo para os Açores, manteremos o antigo, não necessariamente por mérito do governo e também não necessariamente pela credibilidade da oposição, mas simples e principalmente para mantermos a tranquilidade dos dias… www.mpatraoneves.pt www.mpatraoneves.pt

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