A visita

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Chegou finalmente o dia da visita tão esperada. E, nós todos em pulgas. Para ver com olhos de ver ao vivo e a cores o nosso primeiro. Um momento histórico ou estórico estou confusa na aplicação do termo. Também não faz diferença. Foi o  momento.

E ele chegou. Foi recebido nas ilhas de baixo com pompa e circunstância, talvez mais do que na nossa capital de cima, o que é muito compreensivo, uma vez que essa é uma ilha à parte, sofisticada e onde a temperatura não sobe anormalmente por dá cá  aquela palha. 

O nosso primeiro, simpático como sempre, sorrindo, deu umas voltinhas, até foi à marina da Horta, salpicado por uns chuviscos de boas vindas, atravessou o canal a caminho do Pico, onde foi surpreendido à chegada pelos presidentes das câmaras, filarmónica, populares e muito especialmente pelo Grupo Folclórico da Candelária. Aí, teve uma birra. “ Não danço. Nem com a minha mulher e ela gosta”. Adorei este gesto. Sinceridade como é seu apanágio.

O senhor tinha toda a razão do mundo. Era o que mais faltava! Cansado, quem sabe enjoado com as voltas do Mestre Simão e agora dançar? Palermice! Esta gente do folclore tem cada ideia! 

E lá seguiu a caminho  das palestras, das vinhas, dos aperitivos, eu sei lá. O que eu sei é que parece que houve um presidente da câmara que não compareceu. E, como disse Xanana Gusmão: “tinha outras coisas para fazer”. Se o  senhor não compareceu, concordo. Na realidade gente do Pico, não é gente para perder tempo por dá cá aquela palha. Trabalham muito, por isso vê-se o que se vê e orgulhamo-nos disso. E é esse orgulho, esse trabalho, esse esforço que os estrangeiros conjuntamente com a beleza da terra, admiram e elogiam. E voltam, voltam e voltam e por vezes ficam para sempre.

O que não correu muito bem foi a explosão de nãos que o senhor trazia armazenados na cartola. De nada serviram os pedidos recebidos, porque,como sabem ele é teimoso que nem só! Nós, açorianos, temos um termo de comparação mais interessante, mas não vou empregar aqui, seria uma confusão animalesca. Bem, continuando, ele foi veemente com os seus nãos. Tiro e queda! Também estamos na época! Penso que a culpada foi a mãe que não o ensinou a ser contrariado. Deu por certo muitas regalias ao menino e olha aí o resultado! Um batalhão de gente contrariada, ouvindo as negas, até dava dó. Olhar para as caras deles, a reação à flor da pele, a chateação de tanto esperar e agora ficar ali plantado ouvindo negas, não é mole, não!

Ele, impávido e sereno, o altíssimo, o poderoso, prometeu voltar. Talvez volte. Acredito. O que não acredito é que volte de novo como primeiro. Será aí a meio da escala. Sem Mestre Simão ao dispor. Sem súbditos de guarda chuva em punho. Sem salamaleques. É melhor que traga gabardine, porque aqui neste  fim do mundo chove horrores, as rajadas de vento são o dobro daquelas que conhece e há trovoadas que mandam cada raio que parte tudo.

E o senhor não é ilhéu, continuará a ser visto como o grande homem que sempre foi. Não queremos que se molhe, que se constipe, que seja molestado por algum raio. Deus o proteja! E venha tranquilo porque o Rancho Folclórico da Candelária não vai aparecer! E o senhor aqui não dança mesmo!

Aquela sua visita fez lembrar uma febre. Aquilo foi um aviso, um sintoma prévio de que nem tudo iria correr bem. Uma infeção à vista, um vírus que deu para demonstrar que há leucócitos suficientes para destruir a quantidade de avarias que por aí proliferam. Mas tantos não, neste caso certamente os glóbulos  brancos irão desagregar-se e morrer sem conseguir nada… nadinha. Daí, aqueles calores que sentimos ao ouvi-lo, irão até ao cérebro, pondo algo a funcionar e resultando a febre. Ela é a nossa incapacidade.

Fugi do assunto. Apesar dos pesares fomos uns priviligiados. A visita veio e foi-se . Como diz o povo num caso destes há sempre dois momentos bons: o da chegada e o da partida.

Já havia terminado a crónica quando ao ler o jornal Ilha Maior, deparo com mais uma calinada da visita. Não é que a assessora do senhor ministro, Eva Cabral, a troco não sei de quê, resolveu, dentro do autocarro dar ordens rudes e autoritárias ao motorista, dizendo até que com gado tudo corria melhor. Espero que o motorista se não sinta humilhado nem deprimido, uma vez que a mulher, Eva Cabral, deve ter esquecido que estava numa ilha dos Açores, onde as pessoas agem como gente civilizada e não lá na terra dela, daí a confusão feita com animais. Foi pena! Será que na realidade a prova de vinhos do Pico foi culpada? Que visita hein?

 

 

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