Ainda “ideologias”…

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A crónica desta semana estava traçada. “Ideologias” era o título. 

E o tema era fácil na afirmação de que o peso que alguns concedem à ideologia distorce completamente a realidade dos factos, através de interpretações feitas “à medida”, intelectualmente desonestas e servindo interesses dissimulados – o que é praticado com uma exímia perícia pelas nossas esquerdas.
A argumentação era ainda mais fácil e nem sequer precisava de recorrer ao longo e variado historial atestador da verdade confirmada e cujos protagonistas pretendem negar. Bastava mesmo invocar o último episódio de ideologia aguda que a crise política brasileira proporcionou: BE e PCP consideram que o alegado combate à corrupção no Brasil é afinal um golpe de Estado! Não importa que esta seja a posição do PT brasileiro, parte implicada na teia de corrupção, e que a nossa esquerda papagueia; não importa a independência do poder judicial como baluarte da democracia em todo o Estado de direito. Afinal, é a esquerda que está sob escrutínio judicial por indícios de corrupção. Ora, como só a direita é corrupta trata-se afinal de um “golpe de estado”; e como só a direita é culpada antes de qualquer deliberação judicial, trata-se de um abuso de poder de investigação legal. A esquerda é sempre moralmente pura pelo que dispensa qualquer escrutínio legal. A nomeação de Lula para o Governo não é mesmo a mais flagrante admissão de culpa e de estratagema de fugir à justiça, e é mesmo um acto de abnegação para salvar a pátria… Os óculos ideológicos deturpam a realidade – haveria de concluir…
Mas o despertar violento de 22 de Março, com os atentados em Bruxelas, fez-me esquecer os meandros mesquinhos do estrabismo ideológico… Mais uma carnificina terrorista! E esta crescente repetição da barbárie dos designados jihadistas não nos pode permitir que a comecemos a admitir como inevitável ou que a comecemos a encarar com indiferença, mesmo que se trate de um distanciamento artificial ditado por mecanismos de autodefesa. A indignação, o repúdio têm de ser hoje tão veementes e categóricos como o foram da primeira vez que o terrorismo islâmico evidenciou a sua estratégia de poder, muito simples, nada sofisticada: matar e matar o maior número possível de pessoas. De “pessoas”?! Não, apenas de “infiéis” que, nos seus padrões, não se qualificam como pessoas…
Vem-me à memória a obra de Primo Levi Se isto é um Homem (1947). Trata-se de um testemunho e de uma reflexão sobre a sua experiência de um judeu italiano num campo de concentração nazi, mas é de facto uma obra intemporal em muitos dos pensamentos que nos transmite e certamente na afirmação de que o homem é a única espécie animal que desclassifica alguns dos seus como iguais. O cão reconhece o outro cão; o gato reconhece o outro gato; mas o homem nem sempre reconhece o outro homem como homem…! E só neste total e absoluto esvaziamento do outro, na supressão completa e radical da identidade do outro, na eliminação tão poderosa como déspota da sua humanidade, se pode explicar a eliminação tão devastadora quanto arbitrária da sua vida.
Na fila do check-in aquele casal trocava carinhos gozando antecipadamente as férias programadas para esta Páscoa, o senhor em frente estava impaciente por apanhar o voo de regresso a casa, a funcionária atendia os clientes diligentemente na sua primeira semana de trabalho; na carruagem de metro, aquela rapariga lia um romance a caminho da faculdade, a mãe projectava com o filho a decoração dos ovos de Páscoa, uma senhora idosa acabara de agradecer o assento que um jovem lhe havia cedido. Terá sido assim…? Não sei. Não interessa. Podem ter sido outros os episódios da vida quotidiana das pessoas que ali estavam naquela ocasião, e podíamos ter sido nós também… Não são os pormenores do momento que importam. Importa apenas que alguém, uma pessoa que reconhecemos como tal, naquele local naquela hora, não reconheceu os outros como pessoas. Seriam talvez pinos num jogo de bowling. Importava apenas pontuar o máximo possível, derrubar o maior número possível de pinos, de umas talvez aparências de pessoas, de infiéis.
Entretanto apercebi-me que continuava a pensar na cegueira das ideologias…, não porque as duas situações invocadas sejam, mesmo que remotamente, comparáveis. Não o são em vertente alguma. Só subsiste a distorção, ora prejudicial, ora trágica, do real como denominador comum das ideologias.

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