As alegrias do cinema

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TI

Foi através da 7ª arte que despertei para o conhecimento das coisas, da vida e do mundo.
A viver nos estreitos limites de uma pequena ilha (Graciosa), sem acesso à televisão, eu era uma criança bisonha para quem o cinema era o fascínio e o sortilégio que me restavam. Recordo, com nostalgia profundamente sentida, esses tempos em que, de calção, me entregava às cinefilias e descurava os trabalhos da escola…
O cinema era, então, uma experiência de sonho, uma entrada no reino da fantasia, que não residia apenas nas histórias que via no écran, mas nos próprios instrumentos que davam vida às imagens. E quem me ajudou a cimentar esse amor pelas fitas foi o sr. Belchior, projeccionista da velha casa de espectáculos da vila da minha infância. Havia, entre nós, uma grande cumplicidade e uma estima profunda e recíproca. Eu faltava à escola só para o ver, na sua oficina, enredado em fitas e bobines, a rebobinar o filme que havia passado na noite anterior. De vez em quando a fita rebentava e era preciso cortar e depois colar os fotogramas. Eu guardava, religiosamente, os que caíam no chão, coleccionando-os numa caixinha de supositórios da minha avó.
Homem generoso, que fazia do seu ofício um apostolado, o sr. Belchior, em noites de cinema, deixava-me entrar na cabine de projecção. Aquele era um espaço sagrado, onde se destacava a valiosíssima máquina de projectar, cujas entranhas causavam em mim um profundo espanto. O sr. Belchior, com gestos meticulosos, fazia deslizar a fita por labirintos de prismas, espelhos, lentes, obturadores, diafragmas, rodas e rodinhas… Depois fechava a portinhola e ouvia-se o trac-trac do movimento circular da fita. Apagavam-se as luzes, rompia um sururu na sala. Com truques de mágico, o sr. Belchior caprichava na focagem. E aquele tremelicante feixe de luz que saía da lente exercia em mim um imenso fascínio. Era então que eu subia para um banco para chegar ao postigo e, deslumbrado, regalava-me com os murros do John Whayne, os tiros do Humphrey Bogart, os sorrisos de Clark Gable, os músculos de Charlton Heston, os olhos de Kim Novak, os beijos de Ingrid Bergman…
A maior parte desses filmes não era para a minha idade. O sr. Pacheco polícia andava de olho em mim… Mas eu, beneficiando da cumplicidade do sr. Belchior, enfiava-me na cabine de projecção uma hora antes do filme começar… O meu pai fazia vista grossa a tais desmandos. A minha mãe afligia-se com as minhas frequentes “escapadelas” às fitas…
Era mais forte do que eu: o cinema, sendo a minha curiosidade maior, fora a minha iniciação. Com o passar do tempo, a inocência do meu olhar foi dando lugar a sorrisinhos marotos, sobretudo quando no écran apareciam aqueles perversos e deliciosos beijos na boca… Às vezes eu saía sub-repticiamente da cabina e, no escuro, escondia-me nas pregas de reposteiros sorumbáticos, para acariciar, com dedos sonhadores, partes baixas em ebulição…
Na catequese, o senhor padre Genuíno Madruga alertava-nos para os inimigos da alma e para os perigos do cinema… Era preciso rezar muito. E todos éramos obrigados a decorar as quatro virtudes: prudência, justiça, fortaleza e temperança…
O celulóide enlevava-me. Os filmes de aventuras, de capa e espada, enchiam-me a vida, transportavam-me para uma outra dimensão; por umas duas horas transformava-me no Zorro ou no Cavaleiro Solitário, cumpriam-se todos os meus sonhos: por arte de magia, o bom recuperava-se da mazela e das feridas, soltava-se das amarras e dos cepos e ficava com a rapariga, os dois a beijarem-se em primeiro plano enquanto nas suas costas brilhava o sol ou a lua e uma orquestra de cordas e sopros fazia ouvir música lânguida.
Eu não resistia aos “westerns” (em que os índios eram quase sempre os maus da fita), pois nesse tempo o mau era sempre vencido pelo bom e pagava os seus crimes com a morte ou com a prisão. Eu e o Arnaldo, meu amigo de infância, tornámo-nos irmãos de sangue: um dia ferimos os pulsos com um canivete, atando-os depois um contra o outro, com um lenço, como os índios nos filmes. Eu era o “cow boy”, Arnaldo, o apache…
E depois havia os filmes de Charlot que despertava o riso e o choro. E havia o Buster Keaton, os Três Estarolas, o Bucha & Estica…
E foi assim, empoleirado numa cabine de projecção, que aprendi a descobrir e a inventar o mundo. Um dia percebi que, afinal, a vida não era como o cinema. Nesse dia chorei perdidamente, mas em mim nunca mais se perdeu o encanto do celulóide. Fiz-me homem e alguns filmes mudaram a minha vida (incluindo um em que me revi como protagonista: Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore…).
Continuo a lançar muitos e múltiplos olhares às cinefilias com o mesmo gozo com que, de calção, espreitava pelo postigo da cabine de projecção da velha casa de espectáculos da minha infância. Ou seja, continuo a acreditar no cinema – essa poderosíssima máquina dos sonhos. E saio dos filmes reconciliado com a vida, mesmo que o real da rua me devolva o sentido da realidade.
Todos os sábados vou ao cinema. Por catarse: pois preciso de um écran que projecte quase tudo o que me falta para tornar ilusoriamente plena a minha vida sem história, sem glória e sem mérito.

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