Autoclismo novo, vida nova

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O ano virou. Queremos que seja realmente novo, que funcione sem defeitos e que a garantia seja “ad aeternum”.
Como um autoclismo renascido que funciona. Uma bênção, um alívio do tamanho do alívio de que nos desfazemos. Uma limpeza sem baldes e sem água entornada. Para isso já bastam os pingos involuntários que se impregnam no chão.
Comparação escatológica com o ritmo da vida, qual eletrocardiograma desaustinado à procura da batida certa, ou do “beat”, como se diz na música. (Contradigo a alfinetada do primeiro texto que escrevi, porque neste caso os inglesismos e francesismo que se seguem assentam que nem um tampo de sanita).
Quando tudo parece perdido, eis que um jeitoso, simpático, e conhecedor do “Métier” põe um parafuso a meio do autoclismo avariadíssimo e como que por milagre, as descargas voltam ao ritmo normal.
Um autoclismo avariado é como um coração de batimento irregular, que cansa, que nos tira o fôlego, que nos obriga a por (salvo seja) a mão na massa. Isto é, ir ao médico, mudar hábitos e talvez começar a tomar alguma medicação para a vida.
Um autoclismo novo evita que passemos vergonhas e demasiado tempo na casa de banho à procura do tal balde, ou tão simplesmente em meditação profunda, na busca da solução mais airosa para que escapemos de fininho de uma vergonha involuntária. É um funcionamento hipertenso que se transplanta do coração para o dia a dia. É o Rock do trânsito, o Rap do cliente, a Balada pós-almoço, e o Pop do fim do dia de trabalho, não esquecendo o Fado da chuva, às vezes vento, nevoeiro ou até uma canção “fina”, leia-se uma área de ópera, em que os agudos são “estala copos”.
O autoclismo é uma invenção com mais de quatrocentos anos (1596) e no entanto conserta-se, regenera-se e mantém estoicamente a sua função. É um clássico intemporal, que vem de trás e continua muito à frente, qual gadget insusbituível. Tem um botão, ou manivela, doseia a quantidade de água, tal e qual o telemóvel em modo de baixa potência. É do mais update que há.
Enchemos, esvaziamos, carregamos no botão e siga na estrada da vida. O autoclismo tem a magia de levar o que já não interessa, de nos preparar para uma nova etapa, de nos fazer sentir muito mais leves. E depois ainda existem tal como nos gadgets, os acessórios de limpeza, antibacterianos e perfumados que reduzem a pegada ecológica.
Tal como na vida, há que deitar fora a carga que nos curva, para que fiquemos prontos para outras curvas.
O ano novo é assim. Deitar fora, deixar para trás, redimensionar, prometer a si mesmo, mudar hábitos, seguir o beat e de vez enquanto mudar o groove, a bem da diversidade.
Quando viramos o disco e descobrimos que toca o mesmo, nada como fazer uma pausa, meditar, tocar no botão, na manivela e desfazermo-nos do que nos incomoda. Incómodos, leva-os a água. Que ela nunca nos falte. Por isso, autoclismo novo, vida nova!

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