Carlos Morais: “Uma coisa que eu gostava era montar uma operação charter”

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TI/SG

A economia de um país ou região pode ser dividida em três sectores, o primário, secundário e terciário. São estes que representam o grau de desenvolvimento económico de um determinado local.

O turismo, enquadra-se no sector terciário e é um dos principais motores da economia dos Açores e do Faial.
Foi precisamente nesta área do turismo que o empresário Carlos Morais resolveu apostar há mais de trinta anos.
Começou na animação noturna, com o investimento numa discoteca durante a Semana do Mar. Foi dono do primeiro PUB na cidade da Horta, político, diretor comercial de uma companhia aérea e recepcionista em vários hotéis locais.
Foi esta última função que lheintroduziu o gosto pela área do turismo. Desde aí nunca mais parou. Hoje é dono de duas Agências de Viagens, uma no Faial e outra no Pico, de um Hotel, de uma rent-a-car e ainda responsável pelo transporte escolar na época baixa.
O empresário é atualmente uma das maiores entidades empregadoras privadas do Faial. Ao Tribuna das Ilhas Carlos Morais falou da sua atividade e dos projetos que tem na área do turismo para o Faial e Pico.

Tribuna das Ilhas – O Carlos Morais é empresário há vários anos. Ao longo dos anos tem apostado em várias áreas relacionadas com o Turismo, nomeadamente, hotéis, agências de viagens, transporte escolar. Fale-nos um pouco destas atividades, como foram surgindo e como se relacionam entre si.
Carlos Morais – Comecei como empresário numa Semana do Mar com uma discoteca no “Tufe” na Praia do Porto Pim. Depois fiz o primeiro Pub da cidade da Horta, o Clipper, na avenida por baixo do restaurante Capote, numa sociedade com o dono do espaço. Posteriormente, ainda na área da animação nocturna, numa sociedade com o Eduardo Duarte, abrimos uma discoteca, restaurante e PUB. Nessa mesma altura começo como empresário mais a sério com a atual agência de viagens a Aerohorta.
A par destas atividades, durante muitos anos fui funcionário de agências de viagens. Comecei como funcionário da Agência de Viagens Ornelas, depois passei para a Agência Açoreana de Viagens. Já tinha trabalhado como funcionário recepcionista em dois hotéis do Faial e foi aí que bichinho do turismo ficou.
Numa situação em que fiquei praticamente desempregado uma das coisas que eu sabia fazer ou que achava que sabia fazer era trabalhar em turismo. Nessa altura abro uma agência de viagens no Faial a “Via Vitória” através de uma representação com outra agência. Mais tarde, em 1999 surge então a Aerohorta, numa sociedade com a minha família que tem sido a base de toda esta sustentação e que sempre acreditou nos meus projetos.
Os negócios foram surgindo uns atrás dos outros. Nós tínhamos as agências de viagem que se dedicavam essencialmente à venda de bilhetes de avião e pacotes turísticos. Com a entrada da Internet as pessoas compram cada vez menos bilhetes nas agências. Percebi que teria de fazer uma adaptação à atual conjuntura. Nesse sentido tive que diversificar o negócio.
Tendo em conta algumas representações de empresas que tinha, precisava de autocarros e de carrinhas para transferes, fomos investindo nessa área . Depois como o nosso turismo é muito sazonal tivemos que rentabilizar os investimentos no inverno aí aparece o transporte escolar.
Recentemente passámos a ter uma rent a car na qual já temos uma série de viaturas. Estamos sempre a caminhar para tudo aquilo que seja serviços na área do turismo.
Por outrolado a crise por vezes cria oportunidades e a questão do hotel foi assim. Resultou de uma crise que existiu nos Açores e a nível nacional e internacional, que neste momento se apresenta como uma aposta ganha. Na altura que aluguei o hotel não sabia que ia haver um crescimento do turismo nos Açores e por sua vez no Faial e as coisas vão correndo razoavelmente bem.

TI – Enquanto empresário ligado principalmente à área do Turismo, como vê a evolução das acessibilidades aéreas e marítimas, quer no Faial quer nos Açores?
CM – Na questão das acessibilidades penso que nas novas negociações de contrato de serviço público para março de 2018 existem algumas arestas a afinar. Há uma questão que ouvimos falar há pouco tempo que a SATA estava a pensar comprar uns aviões mais pequenos para fazer essencialmente as carreiras de Obrigações Serviço Público. No meu entender, não será uma má ideia, mas temos de perceber que tipo de avião é, que tempo leva para chegar e vir de Lisboa, se é para passarmos a ter de inverno pelo menos uma ligação diária regular e de verão mais do que uma. Isso seria importante, uma vez que, com este planeamento, caso se verifique, consegue-se chegar e partir para a Europa no mesmo dia. O mercado europeu é muito importante faz-nos de alguma maneira crescer no turismo por um lado e por outro, em termos de mercado nacional, se calhar, poderíamos ter algumas tarifas mais apelativas que poderia ajudar a crescer no inverno.
No Verão nós não temos neste momento margem de progressão muito embora tenham aparecido muitas camas. Nesta altura em termos de alojamento local, apartamentos penso que surgiram, já este ano cerca de 200 camas, mas com o turismo desta maneira e com crescimento a dois dígitos terão de aparecer outras situações.
O nosso aeroporto tem os problemas que tem mas se partirmos por exemplo para esse tipo de avião se calhar não será extremamente necessário o aumento da Pista, no entanto, a instalação do RISE que segundo parece está um bocadinho esquecido é fundamental.
Era importante percebermos como as coisas vão funcionar uma vez que já estamos em julho e para março de 2018 já não falta muito tempo. Provavelmente o Governo ou a SATA irá muito brevemente falar sobre esse assunto, espero, até porque o turismo é planeado com muito tempo de antecedência. Neste momento temos praticamente tudo negociado para 2018.

TI – Em termos de ligações marítimas e com estes novos barcos no seu entender o Triângulo está bem servido?
CM – Estes barcos são de facto uma mais valia para estas ilhas. Penso que pecamos apenas por uma situação. As ligações deveriam ser mais rápidos uma vez que continuamos a levar a mesma meia hora para o Pico que levávamos há 40 anos. Nesse aspecto não melhoramos continuamos a levar as mesmas 2horas para São Jorge que levávamos há 30 anos e hoje em dia as acessibilidades também se querem rápidas.
No entanto, melhoramos muito no conforto e no número de ligações, isso indiscutível. A questão do Triangulo é antiga, mas que é uma realidade presente e que tem este leque de proximidade com estas três ilhas que não acontece noutro grupo de ilhas dos Açores e que permite ao turista ficando no Faial, no Pico ou até mesmo em São Jorge, se deslocar principalmente nesta época de jullho e agosto, com um leque de horários muito mais fluentes, para visitar qualquer uma destas ilhas, todas elas com características diferentes, permanecendo aqui uma semana o que é interessante do ponto de vista turístico.
Nestas questões a própria Aerohorta neste momento já adquiriu um barco semi rígido, não para este ano, mas para no próximo criar uns produtos diferentes no sentido de fazer passeios de barco e não ser só a ida à baleias.

TI – O turismo tem crescido nos Açores e no Faial no seu entender o que tem motivado essa procura? Considera que por exemplo o Trail contribui para esse crescimento?
CM – O Trail é um produto que tem a sua venda e que traz uma série de pessoas dos vários cantos do mundo em duas épocas baixas importantes, maio e outubro. Mas existem outros produtos que também são importantes e que trazem gente ao Faial, nomeadamente as regatas internacionais e os congressos. Nós no verão estamos esgotados. O que é importante neste momento. Recentemente ouvi umas declarações da senhora secretária a dizer que tínhamos muita capacidade para baixar a nossa época baixa. Tenho curiosidade para saber quais são as medidas que vai adoptar nesse sentido. Eu ando há quase trinta anos nisto e falamos sempre da época baixa. É evidente que a época baixa já não é igual ao que era há dez anos atrás, mas posso dizer que por exemplo no hotel a nossa taxa de ocupação no mês de dezembro, janeiro ou mesmo novembro é ridícula comparando com outros meses. Por vezes nem dá para pagar luz, água e telefones. O que nós fazemos é arrecadar de verão para manter a porta aberta de inverno e conseguirmos manter alguns postos de trabalho.
Eu tenho debatido através de uma instituição da qual sou presidente que para a época baixa era preciso arranjar algo à semelhança do que é feito para outras ilhas no triângulo e para os meses de outubro a março, que são as épocas em que nós temos mais dificuldade.
Se incrementássemos alguma coisa no inverno trazendo turistas principalmente do mercado canadiano e americano que são mercados que já têm respondido quando são chamados nomeadamente para a Terceira e São Miguel era importante pois uma coisa é ter um quarto ocupado por dia no hotel outra coisa é ter 10 quartos ocupados.
Por outro lado temos uma série de atividades indoor que podem ser feitas de inverno e quando está a chover. A verdade é que temos chuva mas não temos muito frio, temos o Centro de Interpretação, a Casa Manuel de Arriaga, o Aquário de Porto Pim, o Museu da Horta, não quer dizer que tenhamos de ir fazer trilhos ou caminhadas. Eu penso que com estes produtos todos criados temos capacidade de criar experiencias aos turistas diferentes durante a sua estadia. Ai será também um pouco o nosso trabalho de conseguir passar a mensagem de que se tiver a chover temos outras coisas para fazer.

TI – A grande aposta do governo tem sido o Turismo de natureza ativo, no seu entender essa mensagem tem passado?
CM – Sim. Nós temos no caso da Aerohorta e da PicoTur de que também sou proprietário que trabalham muito com turistas que vêm fazer o turismo de natureza.
Existe cada vez mais operadores estrangeiros a vir para este produto. É evidente que a nossa beleza está inigualável. Muita dela intacta não a iremos estragar e não vou ser eu que a vou estragar. Há um tempo fui criticado e muito por pessoas que nem sequer sabiam e desconheciam o que estava a ser feito em relação ao projeto do hotel que tenho para a Ilha do Pico. Essas pessoas talvez deviam-se informar antes de falar. Eu não quero um dia ser acusado fazer um hotel como alguns que estão feitos na ilha do Pico, que se calhar ferem muito mais a susceptibilidade visual do que aquela que nós iríamos fazer.
Neste momento existe mais massa em cima da Caldeira e do Vulcão porque temos mais turismo mas estamos muito longe de as danificar. Não temos turismo de massas, até mesmo em relação à observação de baleias. Estamos muito longe de ter pressão quer sobre o mar que sobre os trilhos pedestres.
Penso que essa tem mesmo de ser a nossa matriz, não desqualificando as outras como é o caso da gastronomia e do vinho, até por há gente que vem à procura desses produtos.

TI – Em termos de investimentos, é do nosso conhecimento que pretende investir num hotel na Ilha do Pico. Porquê a escolha desta ilha? Considera que há uma lacuna nessa área?
CM – A ideia de apostar no Pico já vem de algum tempo. Penso que as próprias pessoas ligadas ao Turismo no Pico tem noção que é necessário um hotel tradicional, chamada hotelaria tradicional que tenha capacidade para alojar no mínimo um avião de 150 a 160 pessoas, daí que nós quando apresentamos o projeto foi com 83 quartos para 180 pessoas para poder fazer aquilo que nós consideramos que poderá ser no futuro uma operação charter.
O Faial tem neste momento camas suficientes para o verão e mais que suficiente para o inverno e o Pico para poder crescer em termos de economia, de aviões e de investimentos futuros em tudo o que diz respeito ao turismo precisa de mais um hotel.
Penso que é uma questão de oportunidade e é nesse sentido que nós, eu com o meu grupo de trabalho, porque sem eles não podia ter aquilo que tenho hoje, com o dinamismo que nós vamos tendo vamos trabalhando. O Pico é importante para nós podermos fazer produtos em que as pessoas que estejam no Pico ou no Faial, não se deslocando muito, poderem passar 4 noites no Pico e três no Faial e vice-versa diversificando um pouco, partindo da tal questão, está a chover procuram as atividades indoor.
Neste momento penso que sou a única empresa com sede social no Faial que tem investido alguma coisa e somos também das maiores entidades empregadoras do Faial em termos de privados. No Pico como é evidente se me derem as oportunidades os investimentos também irão surgir porque eu sempre fui um bocadinho aventureiro. Isto está no sangue.
A questão do Pico teve de ser muito ponderada tivemos de encontrar um parceiro estratégico em termos de banca. Aliás a banca tem sido grande parceiro estratégico, tem acreditado na minha pessoa e na minha família. Na questão do Pico também temos um parceiro financeiro estratégico porque depois por os clientes lá dentro eu penso que consigo.

TI – Em relação ao Faial que análise faz da ilha em termos de evolução do comércio e do turismo?
CM -Nós passámos um período muito mau, eu próprio passei períodos de grandes dificuldades. Isto não quer dizer que esteja tudo bem, mas estamos melhor. É evidente que a única atividade que vai alavancando a economia dos Açores e do Faial será o Turismo. Isto não sou eu que o digo, é partilhado também pelo presidente do Governo e é uma realidade. No entanto há questões que são preocupantes resolver e o inverno poderia ajudar. Era fundamental a formação em várias áreas. Penso que o governo não está a olhar muito para esta questão. E quando falo em formação refiro essencialmente à área da restauração e de atendimento ao público. Saber receber com um sorriso faz toda a diferença.
Essa tem sido um luta diária, porque tenho mais de meia centena de empregados todos eles a trabalhar na área do turismo e isso é extremamente importante porque às vezes recebemos pessoas que estão cheias de problemas e se forem recebidos com um sorriso é sempre diferente.
Essa formação é urgente para não estragar o destino. No inverno poderíamos partir para a formação utilizando os funcionários e os colaboradores que temos nestas áreas para dar alguma formação mediante alguma comparticipação em vez de mandá-los para o fundo de desemprego, ou poderiam estar parcialmente no fundo de desemprego e parcialmente em formação. Isso faria toda a diferença em termos de futuro de serviço.
Depois no caso da ilha do Faial, temos muita dificuldade em arranjar alguém para trabalhar. Penso que está na hora de libertar muita gente que está nos programas recuperar e afins para o mercado de trabalho, para as empresas, até porque já há algumas com capacidade de absorção de mão de obra.
No geral considero que o Faial está no bom caminho. Há coisas que é necessário ir fazendo, de forma a perspetivar o futuro. Não podemos estar só a atuar quando é preciso, temos de prever o que se vai passar e nesse sentido temos algumas situações preocupantes, nomeadamente o caso do Aeroporto, o caso do Porto da Horta, uma pedra fulcral na nossa economia na qual se prevê uma obra que no meu entender tem muito que se lhe diga e acho que precisamos acima de tudo de gente que se fixe, de criar emprego para os mais jovens para que eles se possam sentir realizados, que possam ter melhores salário, e eu próprio me confesso nesta matéria, mas para termos melhores salários nesta área temos de ter uma época baixa que permita que não percamos todas as energias no inverno onde poupamos no verão.

TI – Como é ser empresário nos Açores?
Não é fácil. É preciso não esquecer que eu começo com uma colaboradora. As coisas foram aumentando. A internet revolucionou muito em todas as áreas, hoje tudo está à distância de um click. As pessoas no seu sofá com um cartão de crédito conseguem comprar meio mundo. Neste momento quem não está na internet não está na esfera global. No Faial que tem 15 mil habitantes torna-se difícil ter economia. Por outro lado estamos com dificuldade em outras áreas, como é o caso da pesca, embora felizmente o peixe neste momento esteja a ser bastante valorizado, na área da agricultura também há dificuldades devido à questão do leite, entre outros.
Portanto ser empresário no Faial é um risco todos os dias. Isto não é fácil, eu tenho sempre investido dinheiro do banco, nunca investi dinheiro meu, fiz alguns projetos ao abrigo de fundos comunitários. Esqueçam aqueles que pensam que projetos destes apoiados por fundos comunitários vão resolver. São processos morosos até à receção do dinheiro, mas é uma ajuda e é importante que as pessoas recorram a esses fundos comunitários. Eu estou no turismo, área em que trabalho 13 a 15 horas por dia, 365 dias por ano, não há sábados, nem domingos, nem feriados e que se trabalha precisamente quando os outros estão de férias, mas é a área que eu escolhi, que eu gosto e estou satisfeito.

TI – Como vê Sistema de incentivos do Governo? Considera que este é adequado para apoio aos empresários e aos seus investimentos?
CM – Como eu já referi estes investimentos são importantes, ajudam. Quem o puder fazer faça-o, mas tem que ter a noção que não é fácil chegar ao fim da conclusão de um projeto. Há uma série de papeis que têm de ser bem feitos porque depois quando chega à fazer de pagamentos existem sempre coisas que complicam. Ser empresário nestas ilhas ou nas ilhas mais pequenas é sempre mais complicado porque temos economias de escala muito reduzidas. O governo nesse aspeto e o PO 2020 em termos das empresas é muito bom sobretudo para quase todas as áreas de negócio.

TI – Quais são os seus projetos em termos de investimentos para o futuro? Pretende concretizar algum investimento no Faial?
CM – No Pico continuamos a trabalhar no projeto do hotel que já foi reformulado e que já está de encontro às reuniões que tivemos. No Faial, aguardamos com alguma expetativa o quartel do Carmo. Vamos ver o que vai surgir nessa matéria. Vamos ver o que o programa Revive contempla e depois de sair o caderno de encargos veremos se interessa ou não a sua exploração.
Uma das coisas que eu não quero diversificar nem vou é área de negócio. A minha área é o turismo é aquela que nós estamos vocacionados é aquela que com os meus colaboradores sabemos fazer. Já não temos muito para diversificar, já temos autocarros, carros, barcos, hotel e agências de viagens, brincando só nos falta mesmo o avião.
Fora de brincadeira uma coisa que eu gostava era montar uma operação charter. Pode ser que um dia. Nós com a questão do hotel do Pico em conjunto com o hotel Horta teríamos capacidade em termos de alojamento para montar uma operação charter para nós próprios, tenho um autocarro no Pico que poderia fomentar essa situação principalmente para o inverno e isso é que era importantíssimo.

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