Das ruas, nossos lugares

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TI

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Uma rua é muito mais do que um caminho ladeado de casas, paredes, muros ou árvores no interior de uma povoação, e é muito mais do que a toponímia nela inscrita. Uma rua é um pedaço de nós, da nossa vida, da nossa história, do nosso património, do nosso imaginário e da nossa memória.
Dizemos, metaforicamente, que uma rua é uma “artéria”, ou seja, é um símbolo de sangue e vida. Isto significa que uma rua é o nosso microcosmo de referência, havendo uma identificação com o espaço que escolhemos para viver: a rua é o espelho de um “espírito de lugar”, de uma geografia sentimental e afectiva.
No princípio era o lugar e só mais tarde é que surgiram as canadas, as ruas e os antropónimos na toponímia. Os mais antigos ainda hoje falam da “rua das galinhas” (curral) e “rua do porco” (pocilga ou o atalho que lá conduz), sendo que em todas as ilhas há denominações de “rua nova” e “rua velha”, “rua de cima” e “rua de baixo”, “rua direita” ou “rua do meio”…
“Nós somos de um lugar depois de nele termos enterrado os nossos mortos”, escreveu Gabriel Garcia Márquez. Pelo mesmo diapasão afina Vitorino Nemésio que, vivendo em Lisboa, se identifica com a sua Terceira, escrevendo, no poema “Corsários à Vista”, que naquela ilha tinha “ossos de Pai e Mãe” (in Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e outros poemas, Arcádia, 1976).
Por conseguinte, as ruas são também o lugar onde queremos ver perpetuados os nomes daqueles que da lei da morte se vão libertando. E, bem vistas as coisas, as ruas estão intimamente ligadas aos nossos momentos de felicidade (ou de infelicidade, se tivermos má vizinhança…). Atente-se nos 3 versos deste poema de Cassiano Ricardo, intitulado “Serenata Sintética”:
“rua torta
                lua morta
                                tua porta”.
Nestas simples alusões, o poeta consegue visualizar eloquentemente uma situação amorosa. Senão vejamos: “rua torta” é, obviamente, uma rua em curva; “lua morta” remete-nos para o amanhecer, momento em que a lua já desapareceu, ou uma noite sem luar; “tua porta”, elemento passional, é a casa da amada a quem a serenata é dedicada. Este poema foi escrito numa altura em que ainda havia o namoro de porta e de janela… (Já agora, o autor destas linhas é do tempo dos afectos partilhados, à socapa, na semi-obscuridade de antigos saguões).
A rua é um espaço social de convívio e já foi lugar de deliberação. Recorde-se que, em tempos idos, era na rua que os homens, depois de saírem das tabernas, tomavam decisões a caminho de casa. E, nesta matéria, a rua é também um espaço de observação, de que dá conta a expressão popular “olho da rua”. Lembremos, a propósito, os anciãos da ilha do Corvo que, no Outeiro, se reuniam (e ainda se reúnem) para cavaquear e tomar decisões sobre assuntos ligados à vida comunitária.
Na fraseologia popular temos expressões como “pôr alguém no olho da rua” (despedir, expulsar), “ruas da amargura (rua da Amargura foi o caminho que Jesus Cristo percorreu até ao Calvário), “deitar à rua” (esbanjar), “homem da rua” (homem do povo, vulgar), “mulher da rua” (meretriz), “não pôr os pés na rua” (não sair de casa), entre outras.
Rua abaixo, rua acima… Mas fico-me por aqui, pois hoje não quero meter-me por atalhos…

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