Fim de festa…

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 A azáfama como habitualmente parece ter sido a mesma. O corre corre para as compras. Os presentes, presépios, altares, árvores, luzes, musiquinhas, altarinhos, boas festas, bom ano, feliz ano, comezainas, presentinho ao pobre, caridadezinha de fachada, naquele dia só e mata borrão por cima. Que se lixe! E o aniversariante estaria lá?

Eu sou avessa a estas festas estrondosas. E quanto mais anos passam menos valor dou a esses sinais exteriores de alegria. E foi essa a razão por que este natal nem escrevi minha crónica. Não encontrei assunto sobre isso e outro não seria oportuno. 

Hoje, dias passados no rescaldo das festas, casas limpas e arrumadas, caruma varrida das escadas, árvores jazendo em caixotes de lixo, luzinhas mortas, musiquinhas estafadas e silenciosas, baixelas arrumadas, miolos de doçaria desaparecidos finalmente por tudo quanto é canto, tudo na devida ordem, eu fico pensando: té quinfim!

Sim, o leitor tem razão. Eu tenho ideias estranhas. Confesso. Tão estranhas que naquela mesa de natal eu consigo vislumbrar por entre risos, frases soltas, muito ruído, no lugar de honra não um menino Jesus, criança, mas o velhinho que ele hoje é, dados os anos que já lá vão, feito aquelas pessoas que, festejando mais de um século, a família, faz uma festança, pensando em tudo menos no velhinho. E, assim sendo reúnem os amigos, os parentes, chamam a TV para dar mais aparato, empaturram-se, sopram velas, falando e rindo enquanto o feliz aniversariante, sem se poder bulir, vai mandando um sorriso de boca fechada, um olhar de cataratas feito e duas ou três palavras ensaiadas. Que lindo! É um atentado! Ninguém merece!

Não queria, talvez ninguém quisesse, que fizessem tanta fantochada em seu nome. Atingir uma certa idade, não é sinónimo de virar palhaço. Por favor, haja sensatez. E na noite de natal porque não aproveitar para falar verdade e contar aos filhinhos a história do Menino que hoje é Homem, que nos ama e que em Seu nome estão comemorando ali reunidos e oferecendo presentes porque estão felizes e pretendem transmitir essa felicidade aos outros?

O natal é a época do ano em que se mente mais. Mentem os velhos fingindo-se felizes. Mentem os novos com a chateação dos presentes que não queriam. Mentem os pais falando em coisas dadas pelo Menino Jesus pela chaminé, nos sapatinhos, pelos pais natais, uma infinidade de coisas que as crianças já não suportam. Mentem as crianças, fingindo que acreditam e ficam de olho dando ocasião aos pais para depositar os presentes no sítio esperado. Não gosto!

Mais ainda, há crianças que acreditam e ai está o maior problema. Acreditam e questionam a razão que leva o Menino Jesus a desprezar os pobres e a gostar dos ricos. Como podem os pais livrar-se deste embróglio? Mentindo mais e mais. E quando eles perguntam o que fazem a vaca e o burro no presépio? Neste caso é a vaquinha e o burrinho! Digo isto porque também até hoje nunca entendi. E, pior, estes animais tendem sempre a ser enormes, destacando-se lá no presépio. Enfim, não pretendo ir por aí!

O meu natal, a minha festa é muito simples, sempre. A família encontra-se aqui, ali, além. Num sítio combinado. De braços abertos, carregando alegria e felicidade. Acontece aquele abraço, aquele beijo que já fazia tempo. Meu Deus! De repente acendem-se os projetos na mente, lançando imagens por tudo quanto é lado. Momentos há tão felizes que nem tempo existe para pegar uma câmera e enquadrar o close registar a imagem. Aí é natal! O meu natal! O nosso natal! E durante o ano quantos natais eu tenho? A minha família tem?

É então que entendemos que a poesia do mundo é plural, que há sempre um nome, um rosto, um gesto, um sonho escondido por detrás das pessoas que se cruzam nos nossos caminhos. Podem falar línguas que não a nossa. Mas sempre um entendimento que deixa recordações. E ficamos lembrando experiências que não se apagam e rasgam sulcos por onde irão correr lágrimas e sorrisos da nossa existência, enquanto formulamos muitas vezes perguntas sem resposta. 

E, fim de festa. A família separa-se novamente. Atrás, porém, fica a promessa do amanhã. A esperança do novo encontro. A lembrança de coisas boas. Os abraços, os beijos, as confidências, os desabafos. Acredita-se que vai acontecer. Porque tudo isto é acreditar na vida antes da morte. E aí, toda a diferença.

Maria Antonieta Avellar Nogueira