Lembrando o Alberto

0
13

Decidiu a direção editorial deste jornal homenagear, neste número do Tribuna das Ilhas, Alberto Romão Madruga da Costa, que foi um dos mais destacados faialenses do último quartel do século passado. Esse seu estatuto foi verdadeiramente reconhecido nas homenagens que recebeu a nível nacional, regional e local: Presidente da República, Assembleia da República, Primeiro-ministro, Assembleia Regional dos Açores, Governo dos Açores e da Madeira, Assembleia Municipal e Câmara da Horta estiveram justamente unidos nos dignificantes tributos que lhe manifestaram.

No contexto desta homenagem do Tribuna das Ilhas a Alberto Romão Madruga da Costa, convidou-me o seu diretor para participar dela, mesmo sabendo que a minha condição de familiar muito próximo certamente distorceria a justeza das palavras.

Já com a saudade de quem, como eu, se viu privado do seu contato quotidiano, lembro, no Alberto, o Faialense que tinha uma paixão imensa pela sua ilha e que, por isso, sofria verdadeiramente com o seu progressivo e paulatino esvaziamento na correlação das forças regionais. Sendo, até pelas funções políticas que exerceu, um cidadão dos Açores, o Alberto amava o Faial e era no Faial, “este pedaço de céu”, como às vezes à sua ilha se referia, que queria acabar os seus dias. A doença impiedosa, porém, não lhe permitiu cumprir o seu desejo e regressar ao seu Faial com vida.

Era eu ainda um estudante quando aprendi a conhecer, pela vida do Alberto deputado e secretário regional, as exigências e os sacrifícios que a sua entrega à causa pública provocavam na família, com as ausências constantes e os compromissos frequentes. E aprendi também que, apesar de tudo, e pese ser uma opção de livre escolha individual, ainda hoje poucos contabilizam, no deve e haver dos que se dedicam à vida pública, o tempo e os acontecimentos únicos e irrepetíveis da vida familiar de que eles se privam em favor da comunidade que servem.

Lembro ainda o homem comum que era o Alberto. O pai, sempre preocupado com os seus filhos e com a sua estabilidade profissional. O conversador compulsivo, alimentado por uma memória prodigiosa, que cativava qualquer um, mesmo quando, entre nós, contava as mesmas histórias. O bibliófilo que cobria as paredes disponíveis do escritório com tudo o que se publicava nos Açores ou sobre os Açores. O turista inveterado que se dedicava ao planeamento de uma viagem com a precisão de um cirurgião e que nos entretinha os serões com os pormenores deliciosos da experiência. O apreciador da boa cozinha e, sobretudo, do convívio que a partilha de uma refeição ocasionava. O anfitrião que gostava de ser, distribuindo simpatia e acolhimento.

Lembro ainda o cristão católico que o Alberto era convictamente. E do facto, contado em família, de que, quando ainda jovem, mas já intimamente tocado pelos valores cristãos, numa rixa em que se viu envolvido no Liceu de Ponta Delgada, depois de ter sofrido uma bofetada numa face, o Alberto ofereceu a outra ao seu agressor!

Lembro o contributo inestimável que, em conjunto com outros casais, deu, durante décadas, nesta ouvidoria, à preparação de casais para o matrimónio. Lembro a disponibilidade com que aceitou servir a Diocese dos Açores assumindo o cargo de diretor do jornal Correio da Horta e a forma sofrida como teve de conduzir o processo do seu encerramento. Lembro a sua angústia e desencanto perante a deriva a que assistia na Igreja dos Açores. Lembro a forma edificante como aceitou a sua doença e se dispôs a enfrentá-la no plano dos desígnios de Deus.

Não há momentos ideais para se passar desta vida para uma outra em que acreditamos. Mas, quando o Alberto se despediu desta vida terrena, a 14 de novembro passado, a Igreja universal, proclamava no refrão do salmo responsorial desse dia: “Ditoso o que anda na lei do Senhor”; e acrescentava na primeira estrofe: “Felizes os que seguem o caminho perfeito e andam na lei do Senhor. Felizes os que observam as suas ordens e O procuram de todo o coração.”

Acredito, por isso, que o Alberto partiu e que, pelo testemunho de vida que nos deixou, foi ditoso aos olhos do Senhor!

 

 

01.12.2014

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!