Esta mais uma das cartas que escrevi para si, pela vida fora. Nelas se misturam alegrias e tristezas, sucessos e desilusões, esperanças e desesperanças, seguranças e intranquilidades, amores e desamores. Desabafos! Só Deus e a Senhora sabem! É possível que me repita, pois todas essas cartas tiveram sempre muito de comum.
A carta de hoje, vésperas do Dia da Mãe, será uma daquelas que a Mãe jamais receberá, que não poderá responder, mas que, sei, chegará até si, porque uma Mãe não morre. Embora tenha partido deste mundo, continua sendo Mãe, porque aquele cordão umbilical que uniu um dia, continuará vivo e firme até ao fim dos tempos.
Mãe, acredite, não há palavras que traduzam o meu amor por si. Eu que me prezo de ter grande verborreia, sinto dificuldade em falar desse amor, que me acompanha para todo o lado. Porque ele foi mágico. Foi tão profundo, sincero e grandiloquente, que não permite que nada nem ninguém consiga maculá-lo. A Senhora foi a minha certeza!
Mãe, desde criança sempre entendi que éramos não duas, mas uma só. Sempre me senti confiante a seu lado. Foi a Senhora, Mãe, que me aconchegou a roupa ao deitar, que me cantou canções de ninar. Que me contou histórias de fadas e princesas. Que me deu o último beijo do dia. Que passou noites e noites acordada, no meu quartinho, protegendo a filha doente. E, eu, acordando e adormecendo tranquila, egoísta, sem ter consciência da violência de tanto sacrifício.
Mãe, recordo as festinhas que a Senhora organizou para mim. Os meus doces preferidos, que ninguém mais fez. Recordo, nas escadas, o cheirinho do seu bolo de chocolate e morango. Dos seus suspiros. Da sua torta de laranja. Recordo a sua mão na minha, encorajando-me nos momentos mais tristes. E, quantas vezes, a Senhora sofrendo e rindo, tentando afastar fantasmas, teias, mofos, sofrimentos!
Mãe, a Senhora ensinou-me a dar, não o que sobra, mas o que faz falta. Sem esperar compensações. Ensinou-me a ver o valor das pessoas, tendo em vista os seus actos, não o seu poder. Ensinou-me que belo e bonito é sinónimo de bom e sério. Ensinou-me a perdoar. Levou-me pela mão à Igreja. Falou-me d ´anjos e demónios. Céu e inferno. Paulatinamente.
E cresci. As separações surgiram. Um oceano entre nós. Eu, mulher. Coração de criança. Porque um filho vê uma Mãe com o mesmo olhar, quer tenha sete ou setenta anos. E a Senhora dizendo adeus, forte, corajosa, sorrindo junto aquele barco.
Lá longe as cartas chegando e eu lendo, afagando-as, na certeza que suas mãozinhas estavam ali pousadas no momento.
Mãe, hoje relembro tanta coisa que falámos, fizémos, planeámos. Tanto problema que me ajudou a resolver. Tanta coisa que a Senhora solucionou. Tanta caridade. Coisas que ainda de vez em quando aiguém me conta, elogiando-a e eu sem saber, porque como me ensinou uma mão dá enquanto a outra está distraída.
Mãe, a Senhora partiu, mas ficou comigo. Para mim todos os dias são dias da Mãe. Da minha Mãe. Aos meus ouvidos ressoam seus ensinamentos, seus conselhos, suas advertências , sua potencialidade de perdoar e esquecer.
Dia destes encontrei mais um quadro pintado por si e fiquei olhando. E chorei. Chorei mesmo. Mãe, perdão, por não me ter disposto a aprender consigo a pintura e coisas mais mas não tinha a sua capacidade.
No entanto, tenho procurado dar bem conta da herança que a Senhora me deixou. Essa herança foi a aprendizagem de que a humildade existe em função de como vemos os outros. Que é uma tomada de consciência de que ninguém é superior ou inferior a outro. E que só pode gerar bem querer entre as pessoas. Ensinou-me a não fechar os olhos e ouvidos, temendo que a dor alheia nos incomode. A não ligar aos bens materiais. A libertar ou redimir perversões pessoais. A afastar a arrogância. Porque é mesquinha.
E, no dia da Mãe continuarei orgulhosa por ter sido sua filha. E por ouvir elogios dedicados a si. Como gostaria de ser tal como a Senhora. Mas é difícil. Eu sou imperfeita. Tenho pouco auto-controle. Mas algo frutificou. Sementinha aqui sementinha ali, por entre as dobras do tempo.
E hoje, dia da Mãe, sofro por não poder beijá-la, pegar na sua mãozinha e contar-lhe milhentas coisas, ouvir seus conselhos e depois partirmos por esses caminhos fora, cabelos ao vento, rindo, festejando, sentindo a vida abraçar-nos.
E hoje, dia da Mãe, farei o que sempre tenho feito. Aproximar-me dum estranho, colocar-lhe na mão uma lembrancinha qualquer e continuar caminho sem olhar para trás, sem agradecimentos. Pensando em si, Mãe, tal como a deixei naquele dia 3 de Outubro, para sempre. Disse até já e a Senhora aproveitou para partir, sem eu ver, para não me magoar. Sempre até ao fim! Mãe, obrigada. Um até lá!











