Museus, padres e professores

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DR/TI
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É de grande relevância o papel do clero no desenvolvimento moral e cultural dos açorianos. Basta lembrar que, até meados do século XIX, toda a cultura dos Açores estava praticamente nas mãos dos padres. E, nesta matéria, há este dado inapelável: quem trouxe a cultura para estas ilhas não foram os marinheiros do povoamento (que não sabiam ler) nem foram os nobres (que eram iletrados). Em meados do século XV a cultura foi trazida para os Açores pelo clero, nomeadamente os frades franciscanos e carmelitas e, mais tarde, os jesuítas e capuchinhos que, para além da religião e instrução, nos deixaram outras marcas. Por exemplo, com eles aprendemos os segredos de como produzir o bom vinho, as boas angelicas e as boas aguardentes – o que é uma outra forma de cultura. Tal como ficamos a dever às freiras a nossa melhor doçaria conventual.
Praticamente durante todo o século XX o padre, a par do professor primário, foram os grandes agentes culturais neste arquipélago. E, não por acaso, padres e professores primários estão na origem da criação e fundação de jornais, filarmónicas, grupos corais, grupos de teatro, ranchos folclóricos, tunas, agremiações desportivas e até atividades científicas. Lembro, a propósito, o padre faialense Manuel José de Ávila (1851-1923), que foi um reputadíssimo meteorologista.
Em matéria de museologia vejamos alguns exemplos para ilustrar o que acima referi.
Naturalista e professor foi o micaelense Carlos Macha-do (1828-1901), cujo Museu por ele criado e que hoje ostenta o seu nome, é dirigido atualmente por um padre: Duarte Melo.
O Museu de Santa Maria foi criado pelo pároco da freguesia de Santo Espírito, José Maria Amaral.
O Museu da Horta é o resultado da dinâmica imprimida pelo padre Júlio da Rosa (1924-2015).
O Museu de Arte Sacra e Etnografia Religiosa, na Matriz de Velas, ilha de São Jorge, foi criado pelo padre emérito Manuel Garcia Silveira. Mais recentemente este pároco doou à igreja Nossa Senhora da Graça, Praia de Almoxarife, ilha do Faial, diversificado espólio, patente naquele templo no chamado Espaço Museológico Santo Cristo da Praia.
O Museu da Graciosa foi criado por Teodora Borba (1931-2021), distinta professora de ensino primário.
E não fora o aturadíssimo trabalho de recolha do investigador florentino João Gomes Vieira, o Museu das Flores pura e simplesmente não existiria.
Muito embora não tenham criado museus, os padres Nunes da Rosa (1871-1946), no Pico, e José Alves Trigueiro (1935-2019), na Terceira, foram responsáveis, em diferentes épocas, por pequenos núcleos etnográficos nas referidas ilhas.
Com o advento da Autonomia Político-Adminis-trativa (1976), todos estes museus foram sendo institucionalizados. Mas convirá nunca esquecer aqueles que lhes deram o sopro da vida e souberam guardar e cuidar de todo um acervo para memória futura. Saudemos essa gente que partiu à descoberta das suas raízes, o mesmo será dizer da nossa identidade cultural. 

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