“Nada há de imoral…”

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“Existe na nossa civilização um preconceito e um juízo comum, de que a homossexualidade é imoral, e de que, portanto, deve ser combatida e extirpada. Proponho-me demonstrar que esse preconceito é injusto, que a homossexualidade não é imoral, e que, portanto, não há mister que se combata, ou que se promova a sua extirpação. Demonstrarei, por fim, qual a origem deste preconceito falso. (…) Demonstraremos, primeiro, que a homossexualidade não é contra a Natureza. Isto é, demonstraremos que é natural no estádio evolutivo em relação ao qual a consideramos, isto é, no estádio evolutivo presente da humanidade. Não nos referimos a estádio evolutivo social só; reportamo-nos às sociedades civilizadas em geral, e não a umas em particular, espécie esta de género. Proponho-me demonstrar que a homossexualidade não é imoral à luz de nenhum conceito que cientificamente se possa fazer da moralidade. Demonstrando isso, quedará demonstrado que, guardadas certas reservas que adiante se especificarão, a expressão literária e artística da homossexualidade também não é imoral. E o corolário natural é que nada há que moralizar, onde nada há de imoral.”

Fernando Pessoa, espólio da Biblioteca Nacional, 55 D – 21, 32, 3.

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Ao descer a Cônsul Dabney quase a chegar ao Largo do Infante do lado esquerdo em frente à escola há uma pequena casa desabitada e em ruínas. Os mais antigos talvez se lembrem do homem que ali vivia. Todos o conhecíamos como “Hortense”, nunca soube qual era o seu verdadeiro nome. Era chamado assim num sentido depreciativo, de gozo e escárnio. Era um “florzinha”, um “maricas”, um “paneleiro”. Na minha infância foi o primeiro homem assumidamente homossexual que conheci. Ou melhor, não conheci. Não só nunca soube o seu nome como nada mais sei sobre ele para além da sua orientação sexual. Nem me preocupei em saber da pessoa, da sua alma. Um dos arrependimentos que carrego na vida foi ter, na adolescência, feito parte de um rebanho de garotos que lhe infernizavam a vida. Também eu atirei pedras às suas janelas que deixaram de ter vidros e passaram a ter contraplacado. Não valia a pena ele trocar os vidros que nós os partíamos em seguida à pedrada, a sua humilde casinha transformada numa espécie de prisão fechada onde a luz do sol não podia entrar. Ao fim da tarde na saída da escola, ou aos domingos depois da igreja, nas correrias das brincadeiras em bando, ir atirar pedras à janela do Hortense fazia parte do ritual. Não havia, na consciência do rebanho, qualquer contradição disso com o catecismo. Certamente o amor ao próximo não se aplicava ao Hortense e ao seu “pecado mortal”, aquilo não é “humano” nem merecedor de qualquer simpatia ou compaixão, quem não atirar a pedra é “paneleiro”. E ser “paneleiro” era algo inconcebível, moralmente reprovável, sujo.
Confesso que no fundo sentia pena dele, perdido no alcoolismo e vitima do desrespeito e dos abusos de todos. Sentia mas não me atrevia a dizer a ninguém e quando o bando se juntava, não fosse algum perceber, atirava pedras também. Talvez pelo medo de ser excluído do grupo e etiquetado de “paneleiro”, de ser desumanizado e maltratado como o Hortense. Estranhamente a afirmação da nossa masculinidade passava por isso e medirmos as blicas uns dos outros. Somos tão idiotas e cruéis. Hoje arrependo-me. Não tive oportunidade de pedir perdão ao Hortense, ao que sei morreu sozinho e abandonado naquela casa. Faço agora, em sua memória, este acto de contrição. Não vou mais atrás do rebanho. Acredito hoje que o amor deve ser livre dessas amarras e como sugestão de leitura esta semana proponho o livro “Homossexualidade e Homoerotismo em Fernando Pessoa”*. Uma obra que reúne os muitos textos de poesia e de prosa em que Pessoa exprime sentimentos homoeróticos, ou em que aborda o tema da homossexualidade, uns de forma explícita, e outros de forma implícita, textos esses que foi escrevendo ao longo da sua vida, que se encontram dispersos na sua vasta obra, e alguns inéditos que nunca haviam sido publicados até hoje. Estão reunidos neste livro vários tipos de texto (poesia, contos, textos de ensaio, textos autobiográficos, etc.), abordando diferentes temas, entre os quais o da dualidade da identidade de género, que Pessoa por vezes associa à homossexualidade, e inclui ainda outros onde exprime o seu desinteresse pelas mulheres, sob o ponto de vista afectivo. Devo dizer que me é de todo indiferente se Fernando Pessoa foi homossexual ou não.

P.S. A recente demissão de João Ribas, director artístico do Museu de Serralves no Porto, depois da administração ter censurado parte das imagens de uma exposição de Robert Mapplethorpe, fotógrafo americano (já falecido) dos mais conceituados do mundo e conhecido pela sensibilidade e ousadia no tratamento de temas controversos frequentemente associados à nudez, à sexualidade e ao homossexualismo, motiva a fotografia que ilustra esta crónica. Disse o Jornal Expresso a propósito que “não deixa de ser extraordinário constatar como, quase 30 anos após a morte de Mapplethorpe, vítima de Sida, as imagens da polémica constituem, afinal, apenas um fragmento da extensa obra de um incansável artista. Em toda a sua vida não terá dedicado mais de ano e meio à produção de fotografias com um conteúdo sadomasoquista. Os nus, quase sempre de negros, que povoam muitas das suas imagens, são, antes de mais, uma celebração do corpo, do corpo negro em particular, durante séculos arredado da história da arte. No entanto, essa produção concentrada num escasso tempo de vida continua a funcionar como uma espécie de maldição. Abafa todo o restante trabalho, em particular as belíssimas imagens de flores e naturezas mortas compostas com extremo rigor e precisão por Robert Mapplethorpe.”

* Homossexualidade e Homoerotismo em Fernando Pessoa. Organização de Victor Correia. Edições Colibri, 2018.
Pode ser adquirido através da internet em: http://www.edi-colibri.pt/Detalhes.aspx?ItemID=2204