Poesia de viagem

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DR/TI
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Em criança foi o carro de bois o primeiro meio de transporte que utilizei na minha Graciosa ilha. Os automóveis não abundavam então, e vivia-se circularmente nas calmas, como nos balhos de roda. Andava-se a cavalo e a burro e apanhava-se facilmente “boleia” de numerosos carros de bois. Sobretudo em tempo de vindimas, era vê-los carregados de dornas, atravessando as ruas da vila, numa chiadeira que ainda hoje ecoa nos eixos da minha memória.
II
Nesse tempo eram grandes as assimetrias sociais, e muitos dos meus amigos de pião iam para a escola descalços e de sacola de pano a tiracolo. Por isso toda a rapaziada invejava o carrinho de pedais do Rui Gregório que era um luxo: carroçaria toda vermelha, assento amarelo, guiador branco, faróis que acendiam e vidros que rebrilhavam ao sol. Aquilo fazia um vistão lá na Praça! (Para nós, pobretes, estáva-nos reservado o perigoso deslizar em carrinhos de ladeira pelo caminho novo do Monte de Ajuda abaixo, em vertiginosas velocidades…).
A minha primeira viagem de automóvel “a sério” foi no imponente Morris preto do sr. Luís Coelho. E viajava na velha camioneta do sr. Diógenes, sobretudo no período de Carnaval, nas “longas distâncias” que separavam as quatro freguesias da ilha.
O corpo da dita camioneta desenvolvia-se para trás do motor (que ficava situado à frente e tinha um capô de abrir para os lados), o que lhe dava um ar de “tartaruga”, nome pelo qual ficou popularmente conhecida. Os chassis eram tão velhos que, olhando para baixo, os passageiros viam, através de frinchas, a estrada a seus pés… Viagens lentíssimas, com paragens obrigatórias junto de chafarizes… Percursos feitos em caminhos de terra, pedra e macadame. Um condutor (com força braçal, pois direção assistida era coisa que então não havia) e um cobrador, com a sua mala de cabedal a tiracolo e que, antes de se iniciar a viagem, colocava no tejadilho encomendas e mala do correio que haveriam de ser distribuídas pelos destinatários ao longo dos caminhos. Já com a camioneta em andamento, vinha ele obliterar, pachorrentamente, os bilhetes com uma espécie de alicate…

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