Reflexões Crónicas – As sepulturas dos fundadores da Horta

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Por volta de 1468 – faz este ano 550 anos – chegaram ao Faial os primeiros povoadores, coordenados pelo flamengo Josse van Hurtere, primeiro capitão-do-donatário da ilha. O povoado inicial formou-se na zona de Porto Pim, onde foi construída uma capela dedicada à Santa Cruz, na qual foi também colocada uma imagem da Senhora das Angústias, devoção particular da mulher do capitão, D. Britis de Macedo. 

Esta ermida parece ter ficado ao abandono depois da morte de D. Britis, em 1527. Século e meio depois, cresceu a população da área e pediram ao bispo que criasse uma nova paróquia, dedicada à Senhora das Angús-tias, o que ocorreu em 1684. Foi então construída uma igreja paroquial, substituindo a ermida (na qual estavam sepultados os primeiros povoadores do Faial). Por sua vez esse edifício seria substituído, no início do século XIX, pelo actual.
Até agora desconheceu-se a localização exacta da primitiva igreja. O Padre Júlio da Rosa, que dedicou a vida a investigar estas questões, tinha várias teorias sobre o assunto e chegou a andar de pá na mão a escavar em busca de vestígios, que nunca foram encontrados. Desde o ano passado, devido à obra da Frente Mar, o adro da igreja tem sido alvo de estudos arqueológicos e foram feitos vários achados. No centro do adro existe uma necrópole dos meados do século XIX, que corresponde ao período em que foram proibidos os enterramentos dentro das igrejas (1835) e antes de haver cemitério municipal (no Carmo). Mas os achados mais interessantes foram encontrados junto da torre Norte: alicerces de uma construção, sepulturas e vários objectos. Apesar de estarem ainda a ser estudados, tudo indica que estes vestígios sejam parte dos alicerces da primitiva igreja paroquial, do século XVII, em cima da qual foi construída a actual. Mais extraordinário ainda é o nível que existe abaixo desse, que corresponde a uma construção do século XV ou XVI, quase de certo vestígios da primitiva Ermida de Santa Cruz, o primeiro templo erigido no Faial.


Além de estes serem achados muito importantes do ponto de vista histórico e arqueológico (com contextos singulares no arquipélago), são também os vestígios mais antigos da História do Faial, directamente relacionados com os seus primeiros habitantes, à memória dos quais está dedicada a igreja paroquial. É muito possível que entre as ossadas agora encontradas estejam as de D. Britis de Macedo e de um filho seu que faleceu ainda antes dela, ambos sepultados na primitiva ermida que ela e o marido mandaram construir.
A melhor forma de homenagearmos os nossos “pais fundadores” é estudando e preservando a memória deste espaço. E é possível, com a tecnologia actual, manter à vista uma parte destes achados (protegendo-os com vidro), o que não só seria uma homenagem aos nossos primeiros antepassados faialenses, como seria uma intervenção pio-neira nos Açores e que valorizaria em muito este espaço. Desde há muitos anos que temos visitantes que vêm ao Faial com o propósito de ver os brasões e outras inscrições existentes nesta igreja, sobretudo relacionados com o povoamento flamengo, muitos mais viriam se os achados arqueológicos estivessem também visitáveis e a sua história fosse contada. A obra está a decorrer e é o momento de a sociedade civil se unir e dos responsáveis políticos decidirem se querem manter o plano inicial ou de o alterar de forma a fazer neste espaço uma intervenção que será pioneira no arquipélago e que colocará a Horta na rota do turismo cultural e das boas práticas de património. 

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Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de com-provadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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