Segredo no Regaço da Montanha, de José Carlos Costa, ou a etnografia de um romance

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Victor Rui Dores
Victor Rui Dores

“A Montanha é realmente um mistério de amor.”
(pág. 105)

Autor discreto e estimável, José Carlos Costa continua a escrever livros de carácter regional e regionalista, produzindo narrativas retrospetivas numa escrita eivada de afetos e de outras nostalgias.

Neste seu último livro, Segredo no Regaço da Montanha (2021), e em cada uma das suas 223 páginas, a colossal Montanha do Pico, barómetro de todos os dias, qual outro Deus, está sempre presente: contemplando, acenando, velando, vigiando, dando sinais, emitindo presságios e dialogando com uma vasta galeria de personagens – gente honrada e trabalhadora, movimentando-se no contexto rústico, idílico e telúrico da ilha do Pico, mais concretamente no lugar da Eira, freguesia da Candelária. São personagens muito humanas, solidárias e fraternas, com um grande sentido de dignidade e de entreajuda comunitária. Sofrem, com resignação cristã, a pobreza, o mormaço, as limitações e o isolamento de uma sociedade arcaica e conservadora, fechada sobre si mesma, num tempo (finais dos anos 30 do século XX) em que os homens sobreviviam daquilo que a terra e o mar lhes davam, e as mulheres eram domésticas, pariam filhos e obedeciam servilmente aos seus maridos. A todos pesa a clausura insular, a banalidade do quotidiano, as bisbilhotices, as invejas, as pequenas traições, as infidelidades, os ressentimentos…

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