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Um Vasco Cordeiro entrincheirado

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Vasco Cordeiro é o grande desconhecido da política açoriana. Pouco se conhece do seu pensamento político e quase nada das suas opiniões e apreciações individuais. O que chega ao grande público são as posições do PS/Açores ou do Governo Regional, que ele verbaliza de forma muito profissional e burocrática. Mas é só isso.
Nos últimos anos procurei – nos arquivos dos jornais – artigos de opinião e entrevistas que me permitissem perceber a evolução do seu pensamento político desde os tempos da sua liderança na JS/Açores. Procuro contradições, grandes desvios programáticos e discursivos e um padrão de atuação política que me permita antecipar o seu comportamento no âmbito de situações tipificadas.
O que encontrei é pouco relevante ou meramente litúrgico. Vasco Cordeiro escreveu muito pouco para os jornais e produziu entrevistas que não se afastam nada do que era aconselhável dizer em cada contexto. Fiquei, como devem compreender, um pouco desiludido. Com André Bradford habituei-me a ter ao dispor um inesgotável arquivo de contradições e um conjunto de máximas que não conseguirei esgotar nesta vida, por mais longa que ela venha a ser.
A exuberância e a enorme produtividade “literária” de André Bradford contrasta, neste âmbito, com a esterilidade de Vasco Cordeiro. Senti que tinha atravessado uma espécie de Deserto do Calaári depois de ter concluído, sem encontrar oásis promissores, a pesquisa de milhares de páginas de jornais a propósito das embrionárias ideias políticas que antecederam o nascimento de Vasco Cordeiro como Presidente do Governo Regional dos Açores.
Estamos, portanto, a falar de um homem que se movimenta bem na sombra do espaço político. Que mede conscienciosamente os silêncios e as distâncias. Que sobrevive bem com pouco oxigénio. Dizem-me que é um pouco irascível no trato pessoal com os seus colaboradores, mas o que eu observo no espaço público é um político extremamente calculista, com um sentido tático muito apurado.
Vasco Cordeiro herdou, em 2012, o governo de uma Região afundada numa crise económica de grande dimensão. Para agudizar a questão, o longo governo de Carlos César deixou instalada uma oligarquia de hierarcas partidários inamovíveis e uma Corte bastante substancial. O Rei D. João II disse um dia que o pai o deixara “rei das estradas de Portugal”. Vasco Cordeiro não herdou muito mais que isso.
Mas ao contrário do “Príncipe Perfeito”, Vasco Cordeiro não é homem para “cortar o mal pela raiz”. Não introduziu nenhuma reforma substancial. Não mexeu em nenhum dos grandes interesses instalados na administração regional, no sector público empresarial regional, no partido ou no tecido económico. Preserva os equilíbrios instalados e continua a aceitar a tácita divisão do poder regional com Carlos César, Sérgio Ávila e muitos outros pequenos poderes inamovíveis.
Talvez continue a esperar o momento certo para tomar o controlo total da nau. Quiçá se tenha apercebido que ainda não tem a força suficiente para dar o golpe de mão necessário contra todos os outros detentores do poder socialista. Ou – é a pior das hipóteses e a que eu considero mais plausível – talvez não o queira fazer e esteja apenas em “modo de sobrevivência” política.
Seja como for, o tempo para inverter o curso dos acontecimentos está a esgotar-se. Não lhe resta muito mais tempo para agir e abrir um período reformista que possa salvar a situação. O desgaste do Governo socialista parece evidente e o tempo para agir internamente está a esgotar-se.
Na atual conjuntura imobilista, Vasco Cordeiro optou por entrincheirar-se. Sabe que ainda detém um poder considerável na sociedade açoriana e que a máquina governamental continua poderosíssima. Deve achar que algumas medidas defensivas são mais que suficientes para desbaratar uma oposição que considera fraca.
Vou dar alguns exemplos. A CEVERA (Comissão Eventual para a Reforma da Autonomia) é a cantiga de embalar que Vasco Cordeiro inventou para colocar a dormir a oposição no âmbito de uma eventual reforma do atual sistema político. É evidente que ao PS não lhe interessa promover qualquer reforma que possa abalar a sua hegemonia política. Zeca Afonso cantou uma cantiga de embalar que encaixa bem na presente situação:

 

“Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer”

A apresentação de uma Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social é outra manobra de antecipação. Escolher o mensageiro representou sempre, do ponto de vista histórico, uma vantagem. Mas tudo se esgota nesse propósito tático.
Na questão da ARRISCA, o Governo Regional limitou-se a aguentar a pressão num momento inicial e a proteger o Presidente do Governo Regional nos primeiros embates. A seguir veio com a novidade da futura publicação de todas as auditorias. Velho mais velho não há.
A primeira página, do dia 25 de janeiro de 2018, de um jornal de São Miguel, representa o exemplo clássico de uma tentativa de controlo de danos, jogando tudo na antecipação. Vale a pena reproduzir a primeira página em questão: “Região sai de associações e vende participações em empresas”.
A síntese do titular não podia ser mais cirúrgica: “Governo regional prepara reforma no setor público empresarial para extinguir várias empresas públicas, alienar participações sociais noutras e sair de associações das quais a Região faz parte”. Tudo isto é anunciado momentos antes da criação, por parte da oposição, de uma Comissão de Inquérito ao sector público empresarial regional. Tenho muitas críticas a fazer em relação à eficácia dos métodos de governo de Vasco Cordeiro, mas não me venham dizer que o homem não percebe nada de política.

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