Do padre Júlio da Rosa, meu amigo

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antenho uma longa relação de amizade e de camaradagem cultural com o padre Júlio da Rosa, um homem que sempre teve dois amores: o amor à Igreja e o amor à historiografia. Quero com isto dizer que, apesar da sua provecta idade (90 anos de idade e 65 de sacerdócio), ele continua igual a si próprio, tendo desenvolvido importante ação quer como padre, quer como investigador ao serviço da sua comunidade e da terra que lhe deu berço: nasceu no dia 24 de maio de 1924, na freguesia dos Flamengos, ilha do Faial.

Sim, o padre Júlio é o padre Júlio, ele que é Monsenhor… Estamos na presença de um sacerdote de cultura(s), uma referência incontornável no âmbito da historiografia açoriana, com vasta obra repartida pelo ensaio histórico, os estudos de temática religiosa, a palestra cultural, o discurso de homenagem, a conferência literária e a alocução de circunstância.

Referência indelével no imaginário de várias gerações de paroquianos e de estudantes do Liceu da Horta, o padre Júlio assumiu sempre a lucidez de uma consciência crítica perante o mundo e os outros. E, afável, generoso, humanista e bom conversador, nunca deixou de sonhar intensamente. Durante três décadas ele partilhou comigo muitos dos seus sonhos. E foi com alegria não isenta de emoção que, no dia 7 de junho de 2008, eu, na qualidade de modestíssimo encenador, ajudei a tornar realidade um dos sonhos mais incontidos do padre Júlio: a recriação histórica do desembarque dos flamengos, que se realizou na Praia de Porto Pim, numa co-produção da RTP/Açores e do Governo Regional dos Açores. Nunca vi o padre Júlio tão feliz como nesse dia e nessa noite. O colorido das réplicas da caravela “Vera Cruz” e da nau “Vitória” fundeadas na plácida baía de Porto Pim; o desembarque, em pequenas embarcações, envolvendo cerca de 200 atores e figurantes trajados à século XV; o vistoso cortejo até à igreja das Angústias; a alocução do padre Júlio à Nossa Senhora das Angústias no adro da mesma, perante uma assistência de várias centenas de pessoas – constituíram um espetáculo inolvidável. Depois, à noite, foi a festa dos sentidos à roda de uma apetecível ceia medieval partilhada no Forte de São Sebastião, com atores, figurantes e convidados em grande animação. 

Ao longo de uma vida inteira, o padre Júlio travou uma outra luta: a defesa do nosso património material e imaterial. Com efeito, de há muito que ele vem chamando a atenção para a necessidade de reconstituição de uma História da Arquitetura dos Monu-mentos Eclesiásticos Açorianos, ou então de uma História de Artes dos Açores. Porque foi através das artes que os açorianos deram respostas às eternas perguntas da vida. Nunca é tarde para aprender a lição do padre Júlio: temos que preservar o património escultórico religioso dos Açores, desenvolver os nossos recursos espirituais e salvaguardar o património artístico que os nossos antepassados nos legaram. Recorde-se que foi o padre Júlio que, nos anos 50 do século passado, recolheu e organizou o espólio do Museu de Arte Sacra da Horta que, hoje, aguarda ainda por melhores dias…

No seu ensaio À procura de raízes (Horta, 1994), o padre Júlio da Rosa já defendia que “não pode haver cultura nacional se não houver culturas regionais”. Ora aqui está uma verdade insofismável e de uma gritante atualidade. Por isso saudemos Monsenhor Júlio da Rosa, historiador local que continua à descoberta das nossas raízes, o mesmo será dizer, da nossa identidade cultural.

 

 

 

 

 

 

 

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